18 de junho de 2014

A propósito da proclamação do Rei de Espanha


"Felipe rejeitou a posterior celebração de uma missa para respeitar a natureza secular do Estado. Pela mesma razão a Coroa de prata de 1775 e o ceptro expostos sobre uma almofada em frente ao novo Rei não estarão acompanhados de um Crucifixo. Felipe quis também evitar a pompa ou qualquer sinal de ostentação

Um Rei, ao que parece, miserabilista cheio de complexos e que não tem a noção do que representa a instituição que vai encabeçar amanhã. Isto ficou aliás evidente a partir do momento em que foi anunciado o casamento.

Hoje, rejeitando a celebração de uma missa, dá mais um passo no sentido de destruir a monarquia, cedendo às pressões progressistas de uma sociedade que mais do que nunca precisa de alguém que a inspire, a lidere, e lhe sirva de referência. Escolheu abraçar os valores liberais, sacrificando para isso a honra e a integridade. Escolheu o efémero dos valores biodegradáveis para satisfazer os inimigos da monarquia e, fazendo-o, traiu a Espanha e traiu a Deus.

Já o disse, é-me evidente que a monarquia é sempre melhor do que a república, mas cada vez encontro mais razões para alertar para as diferenças essenciais entre a monarquia tradicionalista e a monarquia liberal – e para me distanciar tanto mais deste modelo quanto ele se vai distanciando da representação e do serviço à nação.

17 de junho de 2014

Imbecis, imbecis por toda a parte


Descobre-se que a Greenpeace acaba de perder 3,8 milhões de euros devido a investimentos especulativos em mercados cambiais.

Esta emite rapidamente um comunicado pedindo desculpa aos doadores, explicando que se tratou de um erro de um funcionário que actuara para além dos limites da sua autoridade, o qual foi entretanto dispensado.

Que não se preocupem os demais, que irão ser recuperadas as perdas deixando de investir-se em infraestruturas orçamentadas para o ano seguinte.


Quem não conhece a internet que a compre. Seria naturalmente inevitável que este caso provocásse uma onda de indignação monumental, a começar pelas redes sociais e pela página de Facebook da Greenpeace. Hordas de proto-imbecis rasgando as vestes, indignados ao saber que o destino escatológico das suas doações tenha sido o seu arqui-inimigo - os luciferianos mercados cambiais - e que as centenas de milhões de euros que são entregues todos os anos para a salvação da terna e suave Mãe-Natureza são afinal processadas em Wall Street por yuppies neo-liberais. Que cairia com o estrondo de uma sequoia gigante a quimera institucionalizada dos amantes de brócolos e pinguins roxos da Amazónia.

Quem não conhece os imbecis que os compre. Afinal, o que se viu foi que a reacção dos homenzinhos verdes é a de enaltecer da ONG a transparência e exultar com o seu fairplay e honestidade, enquanto renovam o seu amor incondicional com promessas de fazer mais e mais doações à tão honrada instituição.
É como fazer amor com uma árvore, enquanto se é sodomizado por um urso.

2 de junho de 2014

A propósito da abdicação do Rei de Espanha

Pouco me interessa o modelo de regime espanhol e das grandes monarquias europeias: apesar das vantagens, que para mim não deixam de ser evidentes, de ter-se como chefe de estado um Rei numa monarquia constitucional, o problema essencial mantém-se, ou seja, continua a existir uma dependência da nação a uma pequena pseudo-elite para quem a nação em si não consta na lista de prioridades.

Numa monarquia tradicional, onde a democracia é orgânica, uma pequena parte do poder está reservada ao Rei, num contrato que é estabelecido de forma natural, transparente e descomplexada entre o Rei e o Povo. Neste sistema, verifica-se que a grande parte do poder está na sua essência distribuído pelo Povo e pela Nação através dos municípios e dos seus mecanismos de administração.

Na democracia inorgânica, por outro lado, o essencial do poder está entregue de forma discreta e dissimulada a uma pequena pseudo-elite composta pelos homens que se escondem atrás dos partidos, pela maçonaria e pelos grandes interesses económicos. Neste cenário, que é aquele em que nos encontramos juntamente com a maioria do mundo dito civilizado, apenas uma parte insignificante do poder está de facto nas mãos da Nação, expressa pelo direito ao voto: um direito inútil e obsoleto que hoje é confundido com as noções de Democracia e de Cidadania.

Esta é a grande ilusão que nos tem sido vendida desde os tempos da Revolução Francesa, e consiste em convencer-nos de que a pirâmide do poder não está invertida. Só quando nos libertarmos do complexo da igualdade é que poderemos voltar a viver numa verdadeira Democracia, onde o poder, personificado na figura do Rei, emana de facto da nação e para o progresso e para o bem-estar da nação é conduzido.

28 de maio de 2014

Alguns factos apagados da história de Timor:


1. A luta armada da ASDT (mais tarde mudou o nome para FRETILIN) contra Portugal até 1974.
2. A relevância (a própria existência se omitiu) de partidos Timorenses que defendiam a continuação do estatuto de colónia Portuguesa para Timor-Leste (UDT), para além de outros que pretendiam a integração política com a Indonésia (APODETI).
3. A guerra civil que existiu de facto entre a ASDT/FRETILIN e os outros partidos Timorenses.
4. O apoio financeiro e militar dado não só pela URSS, mas também por Portugal à ASDT/FRETILIN, um partido marxista com pretensões de tornar Timor-Leste num satélite soviético.
5. A sabotagem e o boicote dos comunistas Portugueses a todos os partidos que se opunham à ADST/FRETILIN.
6. A entrega de Timor-Leste, por parte de Portugal, à esfera do poder Soviético, ou seja, o abandono de Portugal aos Timorenses.
7. A fantochada das eleições municipais de 1975 que atribuíram uma vitória de 55% à ASDT/FRETILIN, feita com o apoio dos comunistas Portugueses que entretanto ocupavam o poder em Lisboa.
8. O silenciamento, através da prisão, exílio ou assassinato, de quaisquer vozes opostas à ASDT/FRETILIN.
9. A eventual tomada de assalto de todas as organizações partidárias de Timor-Leste por parte dos comunistas, e intensificação do programa de propaganda marxista por todo o território.

Ai, Timor, calam-se as vozes dos teus avós.
Ai, Timor, se outros calam, cantemos nós.

24 de maio de 2014

O Descomprometido Esforço Humanitário em Acção!


Ora vejam bem como as coisas funcionam neste nosso admirável mundo novo.

A 15 de Dezembro do ano passado começou a guerra civil no Sudão do Sul. A 24 de Janeiro escrevi este texto no Expresso a propósito do conflito. Uma consequência imediata da guerra foi a criação de inúmeros campos de refugiados dentro das bases da ONU pelas zonas mais afectadas do país, onde mais de um milhão de deslocados internos procuraram alguma segurança a curto prazo. E se nem sempre encontraram segurança nos campos, devido a ataques de rebeldes/forças do governo, também cedo se verificou que a ocupação dos campos não seria a curto prazo. Estávamos no início da época seca, e era crucial encontrar soluções de segurança, higiene e habitabilidade para o médio/longo prazo, soluções que teriam de estar obrigatoriamente implementadas antes do início da época das chuvas.

Visitei vários campos de refugiados por todo o país e as condições de vida eram invariavelmente miseráveis em todos eles. Em quase todos os campos encontrei os refugiados em vales ou pequenas depressões onde a água das chuvas ou dos esgotos naturais se concentrava, criando assim condições perfeitas para a propagação de doenças infecciosas. Os homens, mulheres, crianças e idosos que habitam os campos fazem geralmente as suas necessidades a céu aberto, onde calha, e as fezes vão-se acumulando de forma anárquica pelos campos. A administração da Missão da ONU estava informada da necessidade de desenvolver infraestruturas adequadas, era uma necessidade por demais evidente e não há forma de o esconder ou negar. Havia tempo para o fazer, apesar das precárias condições de segurança: mais de seis meses passaram sobre o início do conflito.

Para além da distribuição de rações e tendas, e o possível apoio médico dado em condições extremas, pouco ou nada foi feito em termos de desenvolvimento de infraestruturas. Sem surpresa, portanto, assistimos a um surto de cólera no Sudão do Sul, agora que começa a época das chuvas, ainda com relativamente fraca intensidade. E com o surto de cólera, intensifica-se o habitual peditório das ONGs para mundos e fundos, para salvar os pobres e miseráveis Africanos. As mesmas ONGs e organizações de desenvolvimento que na sua grande maioria mais não são mais do que um monstro implacável e bem articulado de burocracia e promoção de agendas obscuras, com um rasto de destruição humanitária incalculável. Gigantes a circular fundos bilionários e a distribuir salários para lá de generosos, sempre em nome dos pobres e miseráveis Africanos que, curiosamente, vão ficando sempre em situação cada vez mais pobre e miserável.

Mas há mais, há sempre mais. A ONU, mais os inevitáveis interesses que se escondem atrás desta organização, encontrou mais uma oportunidade de ouro para implementar o seu tenebroso plano de vacinação global, de que já falei aqui há pouco mais de um mês. Numa primeira fase, para começar, cerca de 100,000 pessoas irão receber a vacinacontra a cólera, patrocinada por várias das mais importantes organizações não-governamentais e diversas agências da ONU, e para regozijo das grandes produtoras de fármacos, do eugénico-filantropo casal Gates, e dos clãs Rothschild, Rockefeller & Outros-aventais-que-tais.

Que estas vacinas sejam desnecessárias, ineficazes, caras e perigosas, não interessa para nada. Fundamental é que se mantenha a máquina bem oleada, o dinheiro a circular, as fábricas a produzir, os porcos a enriquecer, e os pobres distraídos com a fome, entretidos com a guerra, ocupados a morrer.

Isto é a democracia que todos defendem como valor absoluto, a demagogia no seu estado mais puro, no fundo não é mais do que manipulação descarada. Está na hora de abrir os olhos e acabar com esta pouca-vergonha. E a começar já amanhã, se tudo correr bem, com uma abstenção-recorde a rondar os 70%.

Dia de Reflexão



Sou fervoroso adepto da decisão de tornar-se por decreto o voto obrigatório em Portugal, e assim elevar-se o exercício activo de abstenção da mera expressão de cidadania à prática generalizada de desobediência civil, com níveis de adesão indiscutíveis, bem acima dos 60%. A desobediência civil é parte integrante da democracia plena e é o processo através do qual nos é possível libertarmos deste regime tirano, farto de políticos parasitários. A abstenção não passa de um mero aviso, o que virá depois quebrará os alicerces do regime, e finalmente bastará um sopro de criança para derrubar toda esta estrutura carcomida pelos vermes e pelas traças. O processo está em curso e é já impossível detê-lo, agora é só uma questão de tempo até à implosão final.

5 de abril de 2014

As Vacinas


As vacinas estão de novo na moda e volta a fazer-se ouvir a voz de especialistas de todo o mundo, com estudos e estatísticas e promoções de vacinas, novas e velhas, e artigos sobre o seu contributo infalível para fazer do mundo um doce paraíso, sem doenças nem pobreza, e eventualmente até sem guerras.

Bill Gates diz que os programas de vacinação - para os quais contribui biliões de dólares e que define como a sua maior prioridade - têm como objectivo a redução da mortalidade infantil e a redução do aumento populacional. Ora, é evidente que a redução da mortalidade não reduz o aumento populacional, pelo que, atendendo aos argumentos usados pelo rei dos filantropos, será difícil ver uma correlação entre este objectivo e os programas de vacinação.

E por falar em correlação, refira-se também que ela não é observável entre a não-vacinação e o aumento de casos de sarampo, este que é usado habitualmente como evidência prima facie da torpeza de quem ousa questionar estes programas. Tal ficou demonstrado nos Estados Unidos, onde em estados com maiores taxas de não-vacinação não foi observado um aumento de casos de sarampo, ao contrário do que sugere a propaganda. Por outro lado, verificou-se um aumento maior em estados onde existe maior número de pessoas que viajam para fora do país, como é o caso da Califórnia e de Nova Iorque. Ao mesmo tempo, olhando para o histórico da doença, pode ver-se que a taxa de incidência aumenta e diminui ciclicamente, tanto antes como depois da criação da vacina, e o maior número de casos de complicações está invariavelmente ligado a questões socio-económicas, onde uma alimentação deficitária e piores condições de resistência ao frio são factores primordiais.

Vem este texto a propósito de um artigo escrito pelo Daniel Oliveira. O tom alarmista, a vilanização de quem surge a questionar a vacinação, a propagação de uma visão quase apocalíptica de forma a criar nas pessoas um medo inconsciente, tudo isso dá a entender que se trata na verdade de um artigo encomendado, e que o DO se prestou a alugar o seu espaço de opinião àqueles que utilizam a propaganda baixa para fazer valer os seus interesses económicos.

As vacinas de facto movem muitos biliões e constituem hoje uma máquina poderosa que alimenta fortunas incalculáveis. Ao mesmo tempo, e desde há vários anos, têm sido canalizadas avultadas quantias para a investigação e desenvolvimento das vacinas, e os que mais têm feito pressão e investido neste campo são por um lado as grandes farmacêuticas, e por outro aqueles que admitem como prioridade fundamental o controlo populacional. Este e outros artigos que têm surgidos contra quem começa a questionar as vacinas são resposta histérica e desproporcional à realidade que relatam, e são sempre fundamentados em estudos e estatísticas feitas ou encomendadas pelas partes financeiramente interessadas na vacinação.

O interesse declarado no controlo populacional de quem financia as vacinas, e a propaganda apocalíptica que tem sido disseminada com maior intensidade nos últimos tempos sugere que uma nova vacina está prestes a ser lançada mundialmente, e que estamos na fase de preparação da opinião pública para a aceitação da obrigatoriedade da vacinação. Tal detalhe ficou aliás bem evidente no último artigo de DO:

«As vacinas são uma proteção coletiva, não individual. Elas garantem uma imunidade de grupo (ou "efeito de rebanho"). Quanto mais pessoas não forem vacinadas, maiores riscos de contração da doença existirão para todos, mesmo para aqueles que são vacinados. Se uma parte substancial da população deixar de se vacinar é toda a comunidade que perde a sua atual imunidade. Quando um pai decide que o seu filho não se vacina está a abrir uma brecha e pôr-nos a todos em perigo»

Cada vez nos impingem mais vacinas, químicos, pílulas, transgénicos e outras drogas através da sugestão e da desinformação. O próximo passo está anunciado e passará invariavelmente por aqui. O processo de marginalização está em curso, pelo que em breve será utilizada a coerção.

6 de março de 2014

Save The Children - Não se deixem enganar

Este vídeo divulgado pela Save The Children irá tornar-se viral dentro de 3… 2… 1…


Mas antes que o comecem a partilhar, poderão estar interessados em saber que:
- Uma das principais preocupações desta ONG é o planeamento familiar e o controlo populacional.
- Actua em parceria com instituições como a Planned Parenthood para a promoção do aborto em todo o mundo.
- …e com as grandes farmacêuticas, nomeadamente a GlaxoSmithKline, um dos grandes grupos que está obcecado com a propagação de programas de vacinas altamente suspeitos.
- Abundam as controvérsias à volta da Save The Children (como se pode verificar através de uma simples pesquisa online), e estas incluem salários milionários para os seus dirigentes, activismo político ilegal, silenciamento das vozes discordantes, manipulação de estudos científicos e da opinião pública através da divulgação de vídeos emotivos e propagandísticos, et caetera
- Qualquer semelhança com a campanha KONY2012 não é mera coincidência.

Dentro de 3… 2… 1…

1 de março de 2014

Memórias de um burro II



O projecto de esperança em que consistiu a independência do Sudão do Sul, depois da secessão do Sudão em 2011, tornou-se um falhanço completo passado pouco mais de dois anos.

Algumas cidades estão completamente destruídas e desertificadas, as casas saqueadas e incendiadas. Assim está por exemplo Malakal, cidade tomada pelos rebeldes, e onde me encontro neste momento. Ao atravessar os escombros daquilo que era até há pouco mais de dois meses uma das maiores cidades do país, deparo-me com centenas, talvez milhares de soldados das forças rebeldes a reforçar as suas linhas, preparando-se para resistir a uma ofensiva do exército leal ao governo que decerto irá chegar nos próximos dias.

Na estrada que liga o que resta do aeroporto à base onde está montado o nosso campo, podem ver-se dezenas de cadáveres em decomposição, rodeados por cães e abutres que os devoram.

Há dias, aquando da ofensiva rebelde que em apenas duas horas levou à tomada da cidade, milhares de refugiados forçam a saída de um lado da base da ONU em Malakal, enquanto que ao mesmo tempo, do outro lado do campo, outros milhares forçam em pânico a entrada. São os que saem os homens e as mulheres da facção dos rebeldes; os que entram encontram-se do lado do regime. Há uma divisão étnica bem vincada, mas são também milhares as crianças de um lado e de outro.

É impressionante a imagem da debandada de uma multidão em pânico, em simultâneo para fora e para dentro do campo, e ilustrativa do cenário de caos e confusão que tomou conta do país.


Até há cerca de um mês, as igrejas constituíam um dos poucos locais de segurança onde a população poderia refugiar-se, muito por culpa do respeito que o povo Sul-Sudanês reservava à Igreja pelo seu importante papel de apoio e conciliação durante os anos de guerra e transição. Há dias, dezenas de religiosas que buscavam refúgio numa igreja foram violentamente estupradas e de seguida assassinadas à queima-roupa, algumas das quais idosas com mais de 70 anos de idade. Repetem-se os casos de saque e destruição de igrejas em vários pontos do país, tendo até os mais resistentes dos religiosos sido forçados a fugir para salvar a vida.

A violência chegou até aos próprios campos de refugiados, improvisados nas bases da ONU, onde são frequentes, senão diários, os casos de agressões e mortes. Contam-se já mais de um milhão de deslocados ou refugiados, e mais de sete milhões em situação de risco grave ou emergência, sem condições de segurança e higiene ou acesso a comida e medicamentos.

As negociações para a paz não avançam; encontram-se aliás quase em ruptura no seguimento do falhanço na implementação do acordo de cessar-fogo. A esperança vai-se extinguindo rapidamente e o ódio e desejo de vingança estão cada vez mais presentes no discurso de todos, independentemente da origem étnica. O conflito, ao que tudo indica, está para durar.

24 de janeiro de 2014

Cessar-fogo no Sudão do Sul

«Na noite de 15 de Dezembro começara o conflicto. Os primeiros relatórios indicam uma revolta interna dentro do exército, tiroteio pesado num dos principais campos militares de Juba, e uma suposta tentativa dos militares revoltosos se apoderarem de um dos principais depósitos de armamento do Sudão do Sul. A situação na capital, ainda confusa nas primeiras horas, rapidamente evolui e alastra-se por toda a cidade, as linhas telefónicas são cortadas e durante quase três dias o tiroteio segue pesado e ininterrupto, e apenas militares se movem nas estradas, enquanto que grande parte da população, desesperada, procura proteger-se do caos que se instala em Juba.

(…)

Juba torna-se rapidamente irreconhecível: lojas, restaurantes e hotéis estão fechados, o movimento é quase inexistente, e o ruído dos disparos torna-se parte do dia-a-dia, apenas interrompido pelo cantar dos pássaros. É uma experiência curiosa, quase hipnotizante - já o constatara em Kinshasa, em Kampala, em Bujumbura, em tempos de guerra - escutar os disparos de uma Kalashnikov, de uma Heckler&Koch, de uma Lee-Enfield, ao som da melodia de um estorninho, de um pardal, de um francolim.»

Poucas horas passadas sobre o acordo de cessar-fogo no Sudão do Sul, deixo-vos a ligação para um artigo publicado esta manhã no blogue Maghreb / Machrek do Expresso, com um agradecimento ao Raúl M. Braga Pires pela publicação.

18 de janeiro de 2014

Abuso sexual de menores

1. Os casos de violações e abuso sexual de menores tornam-se tanto mais graves quanto o nível de confiança depositado nas instituições que, tendo sido criadas com o propósito de proteger os mais vulneráveis, são responsáveis directa ou indirectamente pelos abusos em causa.

2. É imperativo que os suspeitos de violações e abuso sexual de menores sejam julgados e, se considerados culpados, condenados a penas de prisão severas e exemplares.

3. As instituições em causa têm o dever de prestar às autoridades competentes todas as informações disponíveis em relação a suspeitos de abusos a menores, e deverão fazê-lo de forma imediata e sem reservas.

4. Qualquer pessoa ou organização responsável por encobrir ou ocultar informações relativas ao abuso de menores deverá ser punida de forma severa e exemplar, seja pela sua responsabilidade individual ou colectiva em relação ao encobrimento ou ocultação dos factos, seja pela protecção dada à pessoa ou pessoas responsáveis pelos crimes em causa.

5. Numa situação em que se verifiquem abusos a menores de forma repetida e sistemática por parte de membros de uma instituição de carácter global, com actividade em praticamente todos os países do mundo, e com uma responsabilidade moral elevada, torna-se adequado que esta instituição preste esclarecimentos públicos e sem reservas perante uma comissão independente em relação a factos ocorridos e à sua actuação perante tais factos, sendo essencial que sejam esclarecidos o número de pessoas condenadas por abuso sexual e suas punições, bem como o número de vítimas de abusos e respectiva compensação material e imaterial.

6. A bem da humanidade e em defesa das crianças de todo o mundo, particularmente as mais vulneráveis, exijo que a organização das nações unidas preste contas a respeito dos abusos a menores cometidos pelos seus membros.

11 de janeiro de 2014

Inconseguimentos



Esta frase merece ser lida, decorada e repetida em voz alta por todos os Portugueses. É um verdadeiro tratado da Língua Portuguesa! É mais do que um poema, é uma obra de arte!

Lembro-me de na faculdade ter lido de Pierre Bourdieu o livro Ce que parler veut dire, onde se faz a dicotomia langue/parole. Só agora consegui entender o fenómeno de, conhecendo uma língua, encontrar-me francamente néscio em relação ao discurso.

Desenganem-se, portanto, aqueles que julgavam ter sido mero acaso a ascensão de Assunção à presidência da Assembleia da República. A segunda figura do Estado Português é afinal um oásis de intelectualidade, e os discursos com que nos brinda de uma profundidade inatingível para o comum dos Portugueses.

Obrigado Presidenta!

(E obrigado ao AFR por ter descoberto e partilhado esta pérola)

Mais, e mais, e mais.

10 de janeiro de 2014

Raridades


Daqui a alguns séculos, talvez décadas apenas, aqueles livros escritos ao abrigo do (des)Acordo Ortográfico tornar-se-ão seguramente objectos de coleccionador. Algo do género dos Calendários da Revolução, do tempo das obscuras experiências Francesas. Serão objectos raros, é certo, mas serão igualmente motivo de escárnio.

Será que entrarão para a história os nomes daqueles que, seja por decreto ou por desamor, decidiram prostituir a nossa língua, a nossa cultura, ou ficará toda uma geração maculada pelas abstrusas experiências praticadas por meia dúzia de vendilhões?

19 de dezembro de 2013

A Crise no Sudão do Sul I

À meia-noite de Domingo, ao som de rajadas de AK-47 e explosões de RPG, apareceram os primeiros sinais daquilo que quase todos no Sudão do Sul têm evitado admitir ser possível: um cenário de guerra civil.

Ainda há três semanas, em entrevista para a Antena1, eu referia com optimismo o facto de que uma gravíssima crise política que ocorrera dois meses antes, em que todos os ministérios do governo foram dissolvidos, não havia resultado numa escalada de violência no país, algo que muitos julgariam inevitável. Ontem à noite, ao telefone com o mesmo canal, tive de admitir que o entusiasmo de então se provara indesmentivelmente precoce.

Evitável ou não, foi precisamente um escalar de violência o que sucedeu, mas só três meses mais tarde. Domingo à noite, forças militares leais ao ex-Vice-Presidente Riek Machar, e essencialmente da tribo Nuer, apoderaram-se de dois depósitos de armas na capital do país, instalando o caos pela cidade. Quanto às motivações e intenções por detrás dos grupos armados muito se tem especulado, chegando até a colocar-se a possibilidade de esta situação ter-se gerado a partir de um mero, infeliz, mal-entendido. No entanto, a realidade é que a força de resistência ao governo está em marcha e, se a violência em Juba diminuiu substancialmente a partir de Quarta-feira, mais a Norte, na cidade de Bor, o exército leal ao Presidente Salva Kiir, de etnia Dinka, perdeu totalmente o controlo da situação.

Numa altura em que se receia que estes grupos possam marchar de Bor a Juba, invadindo e tomando a capital, está a concluir-se o processo de evacuação das embaixadas Americanas e Europeias, bem como de grande parte do pessoal civil residente em Juba. Juntando o útil ao agradável, muitos expatriados irão afinal ter a oportunidade de passar o Natal em casa, algo que decerto terá pesado nesse rápido processo de decisão para sair imediatamente do país.

Sendo que a Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul não comunicou ainda qualquer intenção de evacuar sequer o seu pessoal não essencial, os próximos dias serão cruciais para poder perceber-se se esta situação irá transformar-se numa crise profunda, ou se o Presidente Salva Kiir terá a capacidade de gerir o problema, seja pela força ou pelo diálogo.

23 de outubro de 2013

D. Duarte de Bragança em Macau

Aqui fica uma excelente entrevista conduzida pelo jornalista da TDM Marco Carvalho durante a visita de D. Duarte de Bragança a Macau, onde se falou, entre outros assuntos, da crise económica e política que se vive em Portugal, da possibilidade de transição para um regime monárquico, da democracia, das relações entre Portugal e Macau/China, de Timor, da descolonização Portuguesa, e do caso da bandeira monárquica hasteada no consulado de Macau em 2010.


É a evidência da validade cada vez mais actual do ideal monárquico, mas também a prova de que um jornalismo inteligente, isento e descomprometido ainda é possível.

8 de setembro de 2013

Da Terra dos Fur

Desde que comecei a abordar o tema do Sudão que tenho evitado falar na questão do Dar Fur, região alvo de quase tão grandes quanto justificadas repercussões mediáticas, especialmente a partir de meados da década de 90.

Hoje, numa altura em que a quota mediática para assuntos internacionais se quase esgota no tratamento de “The War Within”, parece-me urgente deixar aqui um breve comentário acerca do que se está a passar na terra dos Fur.

Antes de mais, convém deixar claro que a crise em que o Darfur está mergulhado assume proporções catastróficas e, apesar de ter perdido muito do mediatismo de outros anos, essencialmente pela fadiga causada por uma crise que dura há já demasiado tempo, não deixa por isso de ser uma situação dinâmica, onde tanto podem observar-se períodos de moderado optimismo, como se vê pouco tempo depois a situação deteriorar-se gravemente. Bref, o Darfur ameaça atingir o ponto mais crítico da sua história num espaço de poucos meses, talvez semanas.

Uma das razões que está na origem do acentuar desta crise é a decisão do governo de Cartum de proceder à substituição das organizações humanitárias internacionais que actuam no Darfur – incluindo as agências da ONU – por organizações nacionais. Esta estratégia foi delineada já em 2010, e materializada num documento intitulado “Nova Estratégia para o Darfur”, onde se dá particular relevo à ideia de que o estado de emergência humanitária teria chegado ao fim. Evidentemente não é o caso. Esta falsa premissa, no entanto, cria as bases necessárias para que o governo do Sudão possa proceder à remoção das agências humanitárias internacionais do terreno, o que, por sua vez, irá abrir as portas para que grupos militares do regime ou a ele afectos possam desenvolver uma acção devastadora sobre a população de forma totalmente impune, e com cada vez menor visibilidade internacional.

Note-se agora que um representante do governo declarou publicamente, no passado dia 21 de Agosto, que um dos objectivos de Cartum passa pela remoção de todo o pessoal das agências humanitárias internacionais da região de Darfur. São assim claramente visíveis, por um lado, várias consequências desta decisão, e por outro, as acções tomadas neste sentido, das quais passarei a inumerar apenas uma pequena parte, podendo considerar-se que estes exemplos constituem apenas a fracção de uma acção concertada que tem vindo a tomar proporções catastróficas.

Comecemos pela UNAMID, a Missão da ONU/UA para o Darfur. Torna-se cada vez mais evidente que esta missão se encontra em estado de progressivo colapso, revelando-se incapaz não só de proteger a população civil, mas também a si mesma enquanto missão, como se pode verificar pelo clima de insegurança cada vez maior em que vivem os civis e militares onusianos na região. Os ataques às escoltas da ONU têm vindo a tornar-se cada vez mais frequentes, e o número de mortos entre os capacetes azuis tem aumentado de forma preocupante nas últimas semanas. Mais de 50 soldados perderam a vida em resultado de ataques à UNAMID desde o início do seu mandato em 2008, e entre as vítimas destes ataques, contam-se também 47 mortes de pessoal de agências humanitárias, 139 feridos e 71 raptos.

E no entanto esses números parecem quase irrelevantes face à situação em que vive a população local. Contam-se nos últimos 15 anos mais de 2,000 bombardeamentos aérios a civis já confirmados, e digo isto sem sequer entrar em especulações quanto ao número real de tais ataques. Mais de 350,000 deslocados internos (IDP) recebem apoio directo da American Refugee Committee só na zona do Darfur do Sul. Imagens de satélite revelam a devastação que resultou de um só ataque numa cidade do Darfur Central, em Abril deste ano, onde mais de 2,800 edifícios foram destruídos, e pelo menos 42 civis perderam a vida. De um conflicto tribal no Darfur do Norte que começou no início deste ano, resultaram quase imediatamente 300,000 novos IDP, muitos dos quais eventualmente cruzaram a fronteira para o Chade onde o apoio a refugiados é practicamente inexistente, e as condições de sobrevivência são ainda mais frágeis do que no Darfur.

Considerando o Sudão em toda a extensão do seu território, estima-se que quase 4,5 milhões de pessoas necessitem de apoio humanitário urgente; 1,4 milhões vivam em campos de refugiados; 1,8 milhões de crianças não possam ir à escola; que os níveis de subnutrição atinjam já os 16% da população; que mais de 5 milhões de pessoas não tnham acesso aos níveis mínimos de higiene.

Números aterradores?
E no entanto aqui estou eu, a poucos quilómetros da fronteira com o Darfur, a beber chá e a fumar cigarros à sombra de uma acácia ressequida, a escrevinhar num pequeno bloco de notas negras previsões de que crise está prestes a entrar numa fase ainda mais devastadora.

E resisto, contrariado, a fazer comparações com a justificação dada pelos Estados Unidos para iniciar uma intervenção em território Sírio.

30 de agosto de 2013

Syria Interrupted

Algumas pessoas me têm questionado acerca do meu silêncio em relação aos desenvolvimentos na Síria das últimas semanas. Na verdade tenho resistido à tentação de escrever sobre o assunto principalmente por duas razões: se por um lado o trabalho me tem roubado quase todo o tempo disponível, por outro, pouco ou nada há a dizer para além do que tenho vindo a repetir desde há mais de dois anos.

É curioso verificar que cada vez mais comentadores, sejam da ‘esquerda’ ou da ‘direita’, começam a perceber o absurdo que constitui esta criminosa intervenção estrangeira em território Sírio, bem como a incrível injustiça de que tem sido alvo o governo legítimo de Bashar al Assad.

Desde o meu primeiro (de muitos) artigos sobre a Síria que tenho sido acusado de ‘compactuar com um regime atroz’, de ser um ‘ingénuo colaborador de Assad’, de ‘repetir ad nauseam a propaganda do governo’, para além de ter sido alvo de um rol de criativos insultos menos dignos de serem aqui repetidos. Estava assim, desde 2011, quase isolado a defender a minha posição, e ao contrário de tantos outros ilustres comentadores, não tive por isso de ver-me obrigado a alterá-la a 180º. Registo agora que os argumentos que utilizei vezes sem conta nos últimos anos são agora repetidos precisamente por aqueles que antes os tentavam ridicularizar.

Resta-me a desolação de verificar que os meus piores receios têm vindo a confirmar-se de forma dramática à medida que progride o conflicto na Síria, e que as perspectivas da concretização de uma guerra global, desde há muito adivinhada, assume um grau de probabilidade cada vez maior.

Neste momento em que os dados estão lançados e em que já quase todos possuem renovadas certezas absolutas, deixo para os restantes opinadores o seguimento da discussão. Até porque hoje me apetece escrever sobre o Dar Fur.

25 de julho de 2013

Da Liberdade Religiosa

Em comentário a este artigo, um estimado leitor sugere-me que fale sobre o princípio da separação Igreja-Estado, indicando que esse princípio é “estruturante do estado de direito democrático dos países ocidentais”.

Acedendo à ‘provocação’ d’O Ingles, começo por deixar bem clara a minha posição a esse respeito: sou o primeiro defensor da separação Igreja-Estado. É precisamente essa separação que permite a existência de liberdade religiosa, que aliás muito prezo, especialmente depois da experiência de ter vivido durante quase dois anos no Médio Oriente.

O problema do comentário em causa surge mais adiante, quando o leitor, de forma atabalhoada, introduz alguns conceitos como doutrina religiosa, laicismo, tolerância e liberdade individual, apresentando depois o exemplo da Irmandade Muçulmana para referir o impacto destruitivo que esta tem tido recentemente no Egipto. É importantíssimo fazer então as necessárias distinções entre conceitos, e clarificar um pouco da enorme confusão que vai na cabeça d’O Ingles a este respeito.

1. Laicismo é diferente de Laicidade.

A Laicidade, em termos políticos, pode definir-se como o princípio segundo o qual o Estado não exerce nenhum poder religioso, e as confissões religiosas não exercem nenhum poder político. No Laicismo, par contre, o Estado desempenha uma função de exclusão dos símbolos religiosos da praça pública, remetendo-os para o domínio estritamente privado.

A defesa da Laicidade é, por exemplo, garantir que os Bispos Portugueses não tenham de ser nomeados pelo Governo.
A promoção do Laicismo é proibir professores numa escola pública de usar uma cruz na lapela.

Mais:

2. O Islamismo é por natureza Totalitário

Para explicar este ponto de forma sucinta, cito este artigo de O. Braga, “nem todas as teocracias são totalitárias. (…) O que torna totalitária uma teocracia é o princípio de Ordem política que subjaz à respectiva doutrina religiosa”

“No Islamismo, [a] intervenção política é a de um Princípio de Ordem, o que faz com que o Islamismo seja um caso à parte entre todas as outras religiões universais. E esse Princípio de Ordem islâmica é, por sua própria natureza, totalitário. Portanto, o Islamismo não pode ser a bitola pela qual podemos ajuizar as religiões, mas antes é uma excepção à regra”

3. O Catolicismo e a Lei Natural

Para um cristão, a Lei Natural é inscrita por Deus na natureza do homem, e é por isso simultaneamente divina e natural. No entanto, a questão da lei natural não é meramente uma noção católica, mas a expressão das inclinações inatas do homem para a verdade e para o bem.

Por mais que se tente hoje deturpar a lei natural através de fabulosas engenharias sociais, importa referir que sobressairá sempre a evidência da realidade. Essa certeza advém do conhecimento das três propriedades fundamentais da lei natural: a Universalidade (todos os homens estão sujeitos a ela), a Imutabilidade (ela não evolui) e a Cognoscibilidade (ela pode ser conhecida nos seus princípios mais gerais). Sugiro a leitura deste breve artigo para uma explicação um pouco mais alongada.

Entendida assim a diferença entre um princípio de ordem política e aquilo que é a lei natural, pode facilmente descortinar-se o erro no comentário d’O Ingles ao referir-se a “qualquer tipo de doutrina religiosa” como se não fosse lícito distinguir entre doutrinas.

Noutro artigo, com um pouco mais de tempo, irei abordar a questão dos limites de intervenção política adequados para um Católico, para não deixar o seu comentário só meio respondido.


24 de julho de 2013

A bola é minha, só joga quem eu quiser

No Sudão do Sul, o Presidente Salva Kiir despediu ontem à noite o Vice Presidente Riek Machar, todos os 28 Ministros, todos os Vice-Ministros, o Secretário-Geral do SPLM (o partido no poder) e 17 Generais. Podem ler um resumo da situação aqui.


 Por enquanto a situação em Juba está tensa, mas aparentemente calma. Esperamos para ver o que irá acontecer nas próximas horas.

São 11:59, hora local, e posso confirmar que ainda não fui despedido.


23 de julho de 2013

Dos Partidos

O meu problema fundamental com a política de hoje, em particular com a política partidária, é o facto de não existir uma doutrina sólida e sã por detrás dos programas políticos. É tudo uma amálgama de doutrinas avulsas, mais ou menos compatíveis, mais ou menos assumidas por quem as professa.

Mas o que significa afinal, em termos práticos, toda essa amálgama de mais-ou-menos? O facto de não haver uma linha ideológica definida ou uma base política consistente vai legitimar a priori um infindo rol de rumos políticos completamente imprevisíveis e dependentes quase exclusivamente das sensibilidades individuais. Junte-se a isto o elemento variável da corruptibilidade humana, e temos um país completamente vulnerável a uma classe política assumidamente comprometida com coisa nenhuma.

O sistema é paradoxal: homens que são eleitos na base da demagogia, apoiados em vagas promessas eleitorais, validados publicamente por um maior ou menor carisma pessoal, com o propósito institucional de servir a generalidade dos cidadãos, são suportados por grupos e lóbis com interesses particulares. Ora quando estes interesses particulares colidem com os interesses da generalidade dos cidadãos; quando não existe uma sã doutrina política que seja indicativa do rumo a ser seguido pelos politicos; o que se pode esperar dos mesmos?

É demasiado arriscado deixar que seja o imprevisível nível de honestidade do indivíduo eleito a ditar se os favores serão ou não retribuídos aos interesses particulares ou se irá prevalecer o superior interesse da nação; o carácter semi-divino dos políticos está consagrado constitucionalmente; a inimputabilidade é a norma repetida ad nauseam.

Vem isto a propósito, e em particular, do enigma que constitui a doutrina do CDS-PP. São propostos como pilares ideológicos o Conservadorismo, a Democracia Cristã e o Liberalismo. É certo que a Democracia Cristã se não resume à doutrina social da Igreja, mas qual será então a razão para fazer-se referência à Democracia Cristã num país essencialmente Católico, se se aceitam e promovem perspectivas diversas e fundamentalmente contrárias àquela. Porque, mesmo que não seja essa a intenção, terá essa referência ideológica o efeito de atraír ao partido vários ingénuos subscritores Católicos que, sendo ainda em número significante em Portugal, se declaram fiéis à doutrina da Igreja.

A Democracia Cristã que defende o Partido Popular, tal como tem demonstrado repetidamente ao longo da sua história, é baseada na tradição Protestante e Liberal. Não só a nível politico, como económico e social. Esta tradição Protestante e Liberal de que falo é sem dúvida compatível com o Liberalismo Clássico e o Conservadorismo exactamente por ser maleável, adaptável e permeável a relativismos.

Estes conceitos rejeita-os firmemente a Doutrina da Igreja Católica pois não há nesta espaço para a tibieza do relativismo moral. A tradição Católica está construída nos pilares dos dogmas da verdade; a “tradição” Protestante está construída na rejeição destes mesmos dogmas. Haverá forma de compatibilizar estas duas tradições? Partindo do princípio que a doutrina Católica rejeita todo e qualquer compromisso com o erro, e que as suas verdades fundamentais são permanentes e imutáveis e não sofrerão mutações de acordo com teorias revolucionárias ou perspectivas progressistas, então estas tradições são fundamentalmente incompatíveis.

Quando, portanto, os dirigentes do CDS-PP fazem referência à Democracia Cristã, eles incorrem num erro grave que é o de apresentar esse pilar como de tradição simultaneamente Católica e Protestante. A implicação desta distinção é assunto já discutido aqui, onde estableço a distinção entre o Conservador e o Tradicionalista face ao Progresso. Em suma, o Católico é por natureza contra-revolucionário e anti-conservador, enquanto que o Protestante poderá ser ora revolucionário, ora contra-revolucionário, ora progressista, ora conservador, sem que isso inviabilize, contudo, a sua coerência em relação aos pilares protestantes em que assenta a sua moral.

Além da minha radical desconfiança em relação ao sistema partidário, acresce portanto o total descrédito dos partidos Portugueses, quando perspectivado por um Católico. É pelas razões acima expressas que insisto que não existe um partido político em Portugal onde um Católico possa votar em consciência, sem traír implicitamente os pilares da sua fé.

E por isso defendo repetidamente a abstenção, na consideração de que a avassaladora expressão eleitoral dos abstencionistas constitui o mínimo da contribuição política que poderá fazer um Português para a salvação da Nação.

10 de julho de 2013

“Publicámos mentiras e induzimos os leitores em erro”

Há que tempos que denuncio a propaganda sem vergonha constantemente emitida pela Al-Jazeera que, juntamente com a Reuters, são os canais que mais danos têm causado na opinião pública - pouco exigente - um pouco por todo o mundo. As notícias transmitidas por estas agências são quase sempre reproduzidas ipsis verbis pela quase totalidade dos restantes meios de comunicação.

Para todos os que se recusavam a admitir a evidência da falsidade e facciosismo das notícias produzidas por estas agências, eis a prova do que venho repetindo desde há mais de dois anos. Os estragos, no entanto, já estão feitos: a opinião pública legitimou o apoio da maioria dos governos ocidentais a movimentos terroristas um pouco por todas as regiões afectadas pelo vírus da Primavera Árabe. Recorde-se que este apoio não foi puramente moral ou simbólico, mas concreto: material e financeiro. Os mortos contam-se às dezenas, centenas de milhar.

E agora um pouco de realidade:
 Al-Jazeera correspondent Haggag Salama was among those who resigned, accusing the station of “airing lies and misleading viewers,” Gulf News reported Monday

He added that the channel’s management would instruct staff members to favor the Muslim Brotherhood

Al Jazeera turned itself into a channel for the Muslim Brotherhood group,” el-Menawy told Al Arabiya. “They are far away from being professional"
THE WASHINGTON TIMES, Online, 09/07/2013
Será que alguém ainda tem a coragem de negar o que é flagrante? Será que julgam esta posição exagerada? Estarão certamente a substimar o poder que detém uma opinião pública convicta e mobilizada contra decisões do governo, em especial no que diz respeito a algo tão importante como uma intervenção militar, seja ela directa ou indirecta.

O plano estava delineado há anos, os media agiram de acordo com a agenda pré-establecida, e o povo, como de costume, cumpriu o seu papel de carneiro, engolindo sempre as mesmas mentiras, umas atrás das outras, sem sequer pestanejar.

Mas o mais fabuloso é que esta notícia não irá mudar absolutamente nada. Os media continuarão a seguir à risca a agenda dos senhores dos anéis e o povo continuará a apoiar e a papaguear a sua propaganda.
A Oeste, portanto, nada de novo.

9 de julho de 2013

Sudão do Sul - 2 Anos de Independência

Fotografia: Martine Perret 
Fotografia: Martine Perret

No dia em que completa 2 anos de independência, a mais jovem nação do mundo enfrenta ainda desafios complicados, cuja resolução não passa ainda de uma miragem.

Em termos de segurança, note-se que pelo menos sete milícias rebeldes continuam activas em guerra contra o governo de Juba, sendo que algumas regiões do país encontram-se efectivamente nas mãos das milícias, principalmente no Estado de Jonglei.

Por outro lado, a questão das fronteiras continua por resolver, sendo os exemplos mais preocupantes a disputa fronteiriça com o Quénia pelo Triângulo de Ilemi e a disputa com o Sudão pela região de Abyei, onde se tem verificado recentemente uma escalada de violência nas últimas.

Fotografia: Martine Perret 
Fotografia: Martine Perret

 As estatísticas sociais são igualmente preocupantes, apresentando o Sudão do Sul os níveis de escolaridade e mortalidade infantil mais negativos do todo o globo. Longe de estar resolvida, a questão dos refugiados e deslocados internos assume também contornos dramáticos, calculando-se existirem mais de um milhão de pessoas em campos de refugiados, muitas vezes sem o mínimo de condições de hygiene e segurança.

As Missões das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS) e para a região de Abyei (UNISFA), sem poder considerar-se que constituam um fracasso total, apresentam ainda muitas debilidades, particularmente no que diz respeito à efectiva manutenção da paz e da própria segurança da Missão, que se mostra repetidamente incapaz de fazer frente não só às milícias, mas também aos próprios governos do Sudão e do Sudão do Sul.

Fotografia: Isaac Billy
 Fotografia: Isaac Billy

  São já vários os incidentes que envolveram ataques directos a soldados e civis de ambas as Missões, e o número de mortos que contam nos últimos dois anos é motivo de indisfarçável embaraço. Urge intensificar os meios e rever as estratégias utilizadas para o cumprimento do seu mandato, e nesse sentido têm sido sugeridas medidas quase inéditas na tradição das Missões da ONU em África, como por exemplo o recurso a drones, reivindicação que ganhou força no seguimento do abatimento de um helicóptero civil em Abril deste ano.

Mas nem tudo é tristeza e desolação, como me dizem os meus amigos missionários: o país ainda agora nasceu, e como tal é natural que comece por dar passos de bebé. Há que procurar e alimentar os sinais positivos que vão surgindo e é fundamental manter a esperança e acreditar num futuro melhor, principalmente aqueles que trabalham no terreno e assumem a responsabilidade de contribuir para melhorar o país.

E por falar nisso, o que dizer do pôr-do-Sol sobre o Nilo em Malakal?


8 de julho de 2013

Pó, cinza e nada

Tenho ouvido muitos comentadores a condenar o último golpe de estado no Egipto, alegando a suposta legitimidade de um governo eleito democraticamente (com 51,73% dos votos).

Ora eu, que de democracia percebo pouco e gosto menos, confesso fazer-me uma certa confusão estes democratas que falam de islamofobia de boca cheia, serem incapazes de denunciar a recorrente perseguição que tem sido feita aos cristãos em África e no Médio Oriente. A destruição de igrejas e cemitérios, a perseguição por vias judiciais através de julgamentos-fantoche, a alienação da sua participação na vida pública, a imposição de restrições à liberdade religiosa, o massacre diário de cristãos às mãos de islamistas fanáticos; nada disto aparenta preocupar os democratas: o “cinquentaporcento+1” povo falou e decidiu pelas urnas: o governo é legítimo. Aos cristãos resta a opção do êxodo ou do martírio.

Como seria de esperar os Estados Unidos declararam não apoiar o golpe militar, o que faz todo o sentido de acordo com a sua política de extermínio do cristianismo, tanto dentro como fora de portas. O sangue dos mártires vai jorrando imparável do Paquistão à Síria, do Egipto à Nigéria, só para enumerar os casos mais dramáticos, mas se alguém se atreve a denunciar estes casos, é imediatamente rotulado de islamófobo.

Cada vez mais isolados neste mundo, aos cristãos restará em breve pouco mais do que o consolo de uma vida para além deste pó e destas cinzas.