7 de janeiro de 2011

O Bom, o Mau e o Vilão - Revisited


Assistimos à mesma cena em todos os teatros políticos. É o jogo das cadeiras. As personagens vão rotativamente trocando de papéis. Ora um. Ora outro. O Bom. O Mau. O Vilão. A platéia aplaude de pé mas no fundo nenhum de nٕós realmente sabe quem é quem.

O incidente da passada Segunda-feira carrega coincidências demasiado óbvias para passarem despercebidas, e as evidentes circunstâncias em que ocorreu o ataque à residência de Jean-Pierre Bemba serão tornadas públicas em breve, e de forma natural. O que Kabila não conseguirá no entanto apagar é a desastrosa imagem que passou ao povo congolês e, mais importante ainda, à comunidade internacional que, dentro e fora do país, segue atentamente estas eleições.

Quem é Joseph Kabila? Presidente da República Democrática do Congo, filho de Laurent-Désiré Kabila, também ele Presidente, assassinado em 2001. Joseph Kabila é afinal o único resultado possível da Segunda volta das eleições presidenciais, marcadas para o próximo dia 29 de Outubro. Responsável primeiro pela formação do Governo de União-Nacional, chamou para junto de si os líderes dos principais grupos rebeldes em 2001 e, após longas negociações, fez de guerrilhas partidos políticos e transformou os seus líderes em Vice-Presidentes.

O jovem Presidente, um político inexperiente, terminou assim uma sanguinária Guerra civil que durava simplesmente há demasiado tempo.

Hoje, Kabila tem como adversário político Jean-Pierre Bemba, um dos tais Vice-Presidentes, líder da União Congolesa para a Democracia (RCD), um movimento alegadamente responsável por inúmeros crimes de guerra e contra a humanidade e que valeu a Bemba a sua nomeação no Tribunal Penal Internacional (TPI) pela sua parte na responsabilidade destes mesmos crimes. Jean-Pierre Bemba não quer a Presidência. Ele precisa dela. Ele precisa do poder da imunidade diplomática para ter qualquer trunfo no inevitável dia em que se apresentar diante do TPI.

Bemba parte para a Segunda volta das Eleições já derrotado e no dia em que forem anunciados os resultados finais, ele não aceitará a derrota. O período que se seguir será a prova de fogo para o povo congolês.

Se Joseph Kabila sobreviver à sua própria vitória, terá nas mãos o poder para refazer o pais, começando pela difícil tarefa de conquistar a Kinshasa que, na primeira volta, deu 60% dos seus votos a Bemba. Será este o verdadeiro teste, a que o Presidente não se poderá dar ao luxo de chumbar.

Texto publicado em Setembro de 2006




Relembrando este texto, que escrevi há mais de quatro anos, é agora altura para fazer uma pequena retrospectiva do que se passou desde as eleições de Outubro de 2006. Sem excepção, todas as previsões vieram a confirmar-se.

A segunda volta das eleições deu a vitória a Joseph Kabila com 58% dos votos, resultado que JP Bemba prontamente contestou. Seguiram-se meses de agitação política, à qual a ONU respondeu com um aumento das forças militares em Kinshasa. Não obstante, o temido confronto entre as tropas nacionais e os militares leais a JP Bemba confirmou-se a 22 de Março de 2007, deixando a capital em verdadeiro estado de sítio durante 3 dias.

Lembro-me bem dessa manhã vertiginosa, que começou aparentemente calma. Desde os primeiros avisos de confrontos, recebidos pelo telemóvel pouco antes do meio dia, passaram-se menos de 15 minutos até que estivésse instalado o caos completo em toda a cidade. Pela graça de uma reacção imediata, conseguimos ainda resgatar as mulheres e os filhos dos nossos colegas de suas casas, estando de volta ao escritório nos derradeiros instantes em que a circulação ainda era possível. Ali ficámos durante 3 dias. Pior sorte tiveram muitos outros que, onde quer que estivessem, desesperavam ao som quase ininterrupto de rajadas de AK-47 e disparos de morteiros, encontrando-se longe da mulher e dos filhos, bloqueados em casa ou na escola.

No final, Kabila sobreviveu a curto prazo à vitória política e iniciou o processo de reconstrução do país, através do programa nacional Cinq Chantiers. JP Bemba foi eventualmente detido pelo TPI, onde se encontra actualmente em fase de processo. Do julgamento, que teve início formal a 22 de Novembro de 2010, são no entanto poucos os que crêem numa condenação. Quase certo é que, mesmo que se confirme a sua eventual libertação, dificilmente conseguirá voltar ao seu país a tempo das próximas eleições, marcadas para o final deste ano.

E entretanto novas alternativas vão começando a emergir no Congo. E em mim a esperança na consolidação da Paz.

2 comentários:

  1. Olá querido autor!
    Tens mesmo, mesmo, mesmo tanto jeito para escrever! Ainda bem que voltaste a escrever!
    Continua a escrever!
    Fiquei a conhecer perfeitamente a situação de Kinshasa desde que aí chegaste e agora quero saber as cenas do próximo capítulo: será que Bemba consegue chegar a tempo? Será que Kabila volta a vencer, mesmo que Bemba volte?
    Fico à espera de updates do correspondente Teotilaejoao em Kinshasa :)
    Muitos beijinhos e saudades
    Grumpy

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