8 de janeiro de 2011

Referendo no Sudão

Fotografia: AP
Realiza-se amanhã no Sudão um referendo histórico, que tera repercussões importantíssimas em toda aquela região Africana. Dicidir-se-à por votos o eventual desmembramento do país, numa oportunidade única para o Sul, maioritariamente Negro e Cristão, se tornar independende do norte Árabe Muçulmano. Surge este referendo como cláusula negociada do acordo de paz, estabelecido em 2006, que pôs termo a uma guerra civil que se arrastava há 23 anos.
A guerra civil no Sudão, que começou em 1983, foi a mais longa de toda a historia do Continente e envolveu, se bem que a espaços, todos os países vizinhos, dizimando cerca de 2 milhões de pessoas durante mais de duas décadas, sem poupar mulheres e crianças. Estas eram, aliás, regularmente recrutadas para serem utilizadas nas fileiras da guerrilha separatista do SPLA (Sudan People’s Liberation Army).
Em perspectiva, convém recordar a evolução do paradigma político mundial, em particular no que diz respeito as ex-colonias africanas e os seus movimentos independentistas. Enquanto durava a guerra no Sudão assistia-se ao fim da Guerra Fria, era derrotado o apartheid na África do Sul, e o mundo Ocidental começava a encontrar um novo inimigo comum em movimentos e governos Islamistas extremistas. Naturalmente, todos estes factores exerceram uma enorme influência no desenrolar da guerra no Sudão.

O SPLA, como tantos outros movimentos de guerrilha, adoptou um discurso marxista e radical assente nas desigualdades existentes dentro do estado Sudanês, para assim angariar o ódio necessário que lhe pudesse garantir a existência. Esta estratégia foi de resto admitida publicamente pelo seu líder histórico, John Garang, que sem pudor admitia que o que lhe interessava não eram ideologias, mas sim mobilizar o ódio dos Sudaneses do Sul em relação ao governo central. Eu estava no Uganda em 2005, e lembro-me das dúvidas que imediatamente surgiram em relacão aos contornos duvidosos em que se deu o acidente de helicóptero que vitimou o líder do movimento separatista. As dúvidas nunca foram desfeitas, mas do acidente resultou um mártir feito herói, que amanhã será de novo lembrado nas urnas por quase 4 milhões de eleitores registados.
Deste referendo poderá resultar em Julho um novo país, mas a verdade é que faltam ainda definir várias questões fundamentais que continuam a dividir o Norte e o Sul. Confirmando-se a separacão dos paises, ainda sem fronteiras claramente definidas, prevêem-se para os próximos meses longas negociações em relação a repartição de direitos sobre os recursos petrolíferos e de água.
Garang e al-Bashir, Agosto 2005, Fotografia: AFP
 Apesar das divergências ainda existentes, há um sentimento generalizado de esperança num desfecho pacífico, sustentado pelas importantes declarações feitas esta semana pelo Presidente Omar al-Bashir, em que prometeu respeitar a eventual secessão, embora admitindo que ficará triste se o Sudão se dividir.
Por outro lado, al-Bashir afirmou a sua intenção de mudar a constituição de forma a tornar únicas tanto a lei Sharia como a lingua oficial Árabe, por considerar que ja não havera questões de divergência étnica ou cultural entre os Sudaneses.
Por enquanto resta esperar pelo resultado do referendo, sem no entanto esquecer o Darfur, uma outra guerra de enormes proporções que continua a fazer os seus mortos desde 2003.

2 comentários:

  1. E então, qual foi o resultado? Já se sabe?

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  2. A própria votação dura uma semana. Os resultados são esperados lá para o fim do mês.

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