31 de janeiro de 2011

Um Post Sobre Futebol

Calhou que se sentásse ao meu lado, a bordo de um velho Antonov 12, um militar Jordaniano, daqueles dados para a conversa. Eu, que tenho por hábito não entreter conversas de circunstância a bordo de cadáveres voadores, acedi desta feita à provocação, deixando o Requiem de Mozart para outros vôos.

A introdução é sempre a mesma: “Portugal? Ah! Cristiano Ronaldo, Luís Figo!” (não te esqueces de ninguém?) “And José Mourinho, The Special One!” 1X2…

Aproveitei para saber o que pensava sobre a situação do Egipto e demais mundo Árabe. Disse-lhe ter visto ontem nas notícias que cerca de 200 protestantes se reuniam em Amã a pedir a demissão do Primeiro Ministro Samir Rifai. Tranquilo e com um sorriso condescendente, avisou, como se o explicásse a uma criança, que na Jordânia não há espaço para uma revolução, mesmo apesar de que de tolos nenhum país se escapa. Que “ninguém dá muita importância ao PM, que nós temos lá a nossa Família Real”. Que “toda a gente sabe que o Rei (Abdulallah II) não deixa que um qualquer PM arruine o país” que “se ele começa a disparatar o Rei trata de o substituir”. A descontração com que falava mudou radicalmente quando lhe falei da última visita da Rainha Rania Al-Yasin a Portugal. Agora com entusiasmo, falou nos projectos sociais da Rainha, disse que toda a gente a conhecia pelo mundo fora, que tinha uma vida muito activa, sempre dedicada a quem mais precisa de apoio. Que “todas as mulheres querem ser como a Rainha!”.

Eu, par contre, ía falar-lhe do nosso Presidente e na sua família encantadora. Ía dizer-lhe que o Presidente da República também nunca deixaria que um mero Primeiro Ministro arruinásse um país inteiro. Que o povo confiava no Presidente e que todas as Portuguesas sonhavam em ser sequer metade da mulher que é a Primeira Dama. Depois lembrei-me dos Vitais Moreiras e pensei em explicar-lhe o que é um “patusco”. Reflecti e cheguei à conclusão de que não seria suficiente. Devia dizer-lhe, como se o explicásse a uma criança, que nós, os Portugueses, já saímos das trevas há cem anos, que fizémos uma enorme descoberta, que baptizámos de “ética republicana”, e  que é a resposta para todos os males do país.

Talvez assim o fizésse compreender o quão obsoletas eram as suas palavras. Quão ingénuo o seu discurso. Enfim, quão ridículo o seu regime. Tanta coisa teria eu para lhe ensinar, não calhásse este ser um vôo tão curto, mesmo atendendo à lentidão com que o lendário avião russo rasgava os céus carregados, sobre a selva Congolesa.

Tanto pensei em todas as coisas que haveria para dizer a tão primitiva criatura, que, quando chegou a minha vez de falar, foi “então e o Eusébio?” o melhor que nessa hora me ocorreu.

(Também aqui)

5 comentários:

  1. Pena que dos nossos "rei" e "rainha" ninguém falaria com tanto entusiasmo... ;)

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  2. Se por "rei" e "rainha", quer dizer "Cavaco" e "Cavaca"... evidente!

    Mas caso se refira aos Duques de Branganca, entao so nao falariam com tanto ou mais entusiasmo por desconhecimento ou ma fe :)

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  3. Não tenho nada contra a monarquia, mas com monarcas "experientes"...

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  4. Felipe, escreves tão bem! Podias fazer um livro a relatar as conversas que já tiveste aí pelas Áfricas (reais e/ou baseadas em...). Bjs

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  5. Cada vez mais acho que se tivessemos uma Monarquia Republicana.... como funciona em tantos paises, estariamos bem melhor..... muito melhor, porque de mamões como o Cavaco e a Cavaca estamos nós cheios.
    No mundo nunca ninguem sabe quem é que representa Portugal, pois está sempre a mudar de 8 em 8 anos (sim porque em Portugal os mandatos são de 8 e não de 4 .....)
    E sejamos honestos connosco mesmos.... nem nós o reconhecemos como representante de Porugal.

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