30 de março de 2011

50.000 vidas mais tarde...

Mesmo admitindo que tenho seguido com pouca atenção a evolução política nacional pós-tumor, a verdade é que não apareceu ainda a mais ténue indicação de reais pretensões de mudança. O poder não se afastará muito de onde se vem instalando, cada vez mais confortável, desde há 3 décadas; o PS não vai lavar a cara da imundice socrática que marcou a sua última década (e a de Portugal, por arrasto, e triste sina). O PSD vai divagando sobre as formas e companhias pelas quais irá inevitavelmente chegar ao poder, em vez de delinear efectivamente uma estratégia de emergência que nos tire deste buraco. O PS não precisa de se reinventar porque sabe que o jogo das cadeiras o conduzirá de novo ao governo dentro de 4, 6 anos. Ao PSD faltam tomates, desde que perdeu os de Manuela.

Continuam a pedir-se esforços e sacrifícios às mijinhas em vez de se os impôr com a radicalidade que a situação exige.

De entre os organismos dependentes do estado, quais os obsoletos, quais os dispensáveis? Quem se propõe objectivamente a eliminar este ou aquele parasita que nos consome os impostos sem nada produzir?

A falta de vontade de votar não é mais do que a falta de fé nesta política partidocrática que não tem capacidade de se auto-regular e tampouco alguém verdadeiramente livre e independente que a regule. Será esta, talvez, a principal razão de ser monárquico: o Rei é livre, o Presidente dificilmente o será.

A julgar pelo que tenho visto, só mesmo a questão do aborto poderá eventualmente despertar-me da indiferença com que vejo o próximo processo eleitoral, pelo que só um partido que se proponha a desfazer a trapalhada da lei de 2007 se arrisca sériamente a levar o meu voto.

Está na hora de acabar com este aborto de lei que, em apenas 4 anos, já nos custou mais de 50.000 vidas e mais de 100 milhões de euros. É urgente. E prometo que depois já podem voltar a brincar aos politicos.

5 de março de 2011

Kinshasa – A história de uma revolução

Pouco passava do meio dia. Informações recebidas através de canais privilegiados indicavam ser prudente, por questões de segurança, que o Senhor X (nome fictício) fechásse portas mais cedo, naquele Domingo de Sol difícil. O Senhor X (nome fictício, repito) é um dos históricos comerciantes Portugueses de Kinshasa, trazidos de Leopoldville, e bem conhecido já bem além dos restrictos domínios da nossa comunidade.

A cidade acordava lentamente. Mal se tinham escutado, durante toda a manhã, as habituais pregações dos coloridos Pastores que, a golpes de pincel, salpicam toda a cidade por detrás de cada esquina, por debaixo de cada pedra.

Foi só por volta das três da tarde, no entanto, que chegaram os primeiros indícios de uma revolução em curso nas ruas de Kinshasa. "Quelques coups de feu tirés par militaires inconnus près de la résidence Présidentielle. Prière d’éviter tout déplacement inutile". De seguida chega uma declaração oficial, confusa e precipidada, do ministério da comunicação, que dá a entender ter havido uma tentativa de golpe de estado por parte de militares não identificados, uma tentativa de assassinato do Grande Chefe, um assalto à Casa Branca.

A uma velocidade vertiginosa chovem telefonemas, enviam-se mensagens, trocam-se galhardetes por entre fóruns e redes sociais, mas subitamente, em menos de nada, a revolução chega ao fim para os desgraçados revoltosos: dos sete seis foram 'eliminados', o que foi apanhado encontra-se detido para ser interrogado pelas autoridades competentes.

Animam-se de novo as hostes cibernéticas, nascem à duzia as teorias da conspiração: Feriram o Presidente. Evacuaram os Ministros. Mataram o Presidente. Mataram os Ministros.

Os dissidentes do regime, muitos no exílio, aproveitam também para deixar um ar da sua graça, numa das teorias que mais eco fez pelas ruas da cidade: de acordo com os rumores, terá sido tudo, afinal, um embuste preparado pela presidência, de forma a permitir acusar de conspiração os adversários mais bem colocados para as próximas eleições presidenciais e, de uma forma simples e discreta, retirá-los de cena antes de causarem danos maiores.

É certo que o Presidente não morreu, como também não morreram Ministros, mas seja qual for a verdade dos factos, há uma consideração primordial que importa reter: Kinshasa mantém-se na vanguarda dos mais relevantes movimentos globais. Se é Revolução a palavra de ordem, Kinshasa é a sua capital. E a exemplo de outras tendências que marcaram o mundo nos últimos anos, também esta revolução seguiu a mesma fórmula mágica:

Foram 5, 7 minutos. Mas muito intensos.


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1 de março de 2011

Sudão e o controlo das fronteiras

Tendo em conta a actual situação internacional, prevejo que a agitação no mundo Árabe venha a contagiar também o Sudão num futuro muito próximo. Assim sendo, é também provável que o Sul possa aproveitar o facto de Al Bashir poder estar a braços com uma complicada situação em Cartum, para fortalecer a sua posição em Abyei, uma região de fronteira entre o Norte e o Sul, ainda sem delimitações acordadas, muito rica em petróleo e zona de conflicto tribal.

De forma a evitar potenciais abusos de parte a parte, defenderei uma eventual iniciativa da criação, o quanto antes, de uma força internacional para a securização da fronteira. Idealmente esta seria apadrinhada pelos EUA, mas dado que os fantasmas de Mogadishu ’93 ainda assombram a Casa Branca, temo que esta seja uma possibilidade demasiado remota.

Como alternativas, surgem a União Africana ou uma nova Missão das Nações Unidas. Parece-me desde logo que uma força da UA não tenha a capacidade de responder adequadamente a uma situação que tem todos os ingredientes necessários para um potencial genocídio, pelo que urge ao Conselho de Segurança da ONU (sem dúvida um ‘mal menor’) discutir a criação de uma Missão especialmente dedicada ao patrulhamento da fronteira, como de resto existe já, se bem que em moldes diferentes, entre a Índia e o Paquistão, a Eritreia e a Etiópia, e o Líbano e Israel.

Além do mais, tenho o pressentimento de que a actual Missão da ONU no Sudão (UNMIS) se tornará rapidamente obsoleta, já que é presumível que a vontade de al-Bashir seja ver-se livre dos ‘capacetes azuis’ assim que se torne efectiva a independência do Sudão do Sul. Tomando em consideração esta presumível vontade, seria preferível que a ONU se antecipasse com um plano e um propósito claro, aproveitando os poucos trunfos que ainda terá junto do Presidente Sudanês, para consituir um projecto que possa ser apoiado pelos dois governos.

Finalmente, convém referir que, verificando-se revoltas nas ruas de Cartum, seria do maior interesse para al-Bashir ter uma força de salvaguarda da sua fronteira a Sul, mesmo que este não tenha, para já, capacidade ou interesse em o admitir. Escusado será dizer que esta opção servirá ao mesmo tempo os interesses do Sul, mesmo que seja em potencial detrimento de algum território.

(Desta questão omiti propositadamente o Darfur, já que o paradigma de fronteiras deste território assume contornos bastante diferentes)

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O Sudão em quatro pontos



Entretanto no Sudão acentuam-se confrontos em Abyei, uma zona onde ainda não se decidiram as fronteiras que irão separar o Sudão do Sudão do Sul, o novo país que irá formalizar a sua independência nos próximos meses. Esta questão, uma das mais críticas em todo o processo de paz que originou o referendo de Janeiro para a secessão do Sul (e que em muito diz respeito às enormes reservas de petróleo existentes nessa região) é, a meu ver, só uma das quatro questões fundamentais que marcarão a região nos próximos anos, e com as quais vos irei maçar nos próximos dias, analisadas tanto isoladamente como em conjunto.

São estas questões A governança do Sudão do Sul e o vácuo de uma classe política; Abyei, a questão das fronteiras e a partilha de recursos naturais; O isolamento de Cartum e a sua nova posição no contexto internacional; e finalmente A relevância do Darfur dentro e fora do processo de secessão.

Parto para este exercício com muito mais dúvidas do que certezas, ao que convido todos os interessados a participar neste debate de idéias.

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