5 de março de 2011

Kinshasa – A história de uma revolução

Pouco passava do meio dia. Informações recebidas através de canais privilegiados indicavam ser prudente, por questões de segurança, que o Senhor X (nome fictício) fechásse portas mais cedo, naquele Domingo de Sol difícil. O Senhor X (nome fictício, repito) é um dos históricos comerciantes Portugueses de Kinshasa, trazidos de Leopoldville, e bem conhecido já bem além dos restrictos domínios da nossa comunidade.

A cidade acordava lentamente. Mal se tinham escutado, durante toda a manhã, as habituais pregações dos coloridos Pastores que, a golpes de pincel, salpicam toda a cidade por detrás de cada esquina, por debaixo de cada pedra.

Foi só por volta das três da tarde, no entanto, que chegaram os primeiros indícios de uma revolução em curso nas ruas de Kinshasa. "Quelques coups de feu tirés par militaires inconnus près de la résidence Présidentielle. Prière d’éviter tout déplacement inutile". De seguida chega uma declaração oficial, confusa e precipidada, do ministério da comunicação, que dá a entender ter havido uma tentativa de golpe de estado por parte de militares não identificados, uma tentativa de assassinato do Grande Chefe, um assalto à Casa Branca.

A uma velocidade vertiginosa chovem telefonemas, enviam-se mensagens, trocam-se galhardetes por entre fóruns e redes sociais, mas subitamente, em menos de nada, a revolução chega ao fim para os desgraçados revoltosos: dos sete seis foram 'eliminados', o que foi apanhado encontra-se detido para ser interrogado pelas autoridades competentes.

Animam-se de novo as hostes cibernéticas, nascem à duzia as teorias da conspiração: Feriram o Presidente. Evacuaram os Ministros. Mataram o Presidente. Mataram os Ministros.

Os dissidentes do regime, muitos no exílio, aproveitam também para deixar um ar da sua graça, numa das teorias que mais eco fez pelas ruas da cidade: de acordo com os rumores, terá sido tudo, afinal, um embuste preparado pela presidência, de forma a permitir acusar de conspiração os adversários mais bem colocados para as próximas eleições presidenciais e, de uma forma simples e discreta, retirá-los de cena antes de causarem danos maiores.

É certo que o Presidente não morreu, como também não morreram Ministros, mas seja qual for a verdade dos factos, há uma consideração primordial que importa reter: Kinshasa mantém-se na vanguarda dos mais relevantes movimentos globais. Se é Revolução a palavra de ordem, Kinshasa é a sua capital. E a exemplo de outras tendências que marcaram o mundo nos últimos anos, também esta revolução seguiu a mesma fórmula mágica:

Foram 5, 7 minutos. Mas muito intensos.


(Também aqui)

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