1 de março de 2011

Sudão e o controlo das fronteiras

Tendo em conta a actual situação internacional, prevejo que a agitação no mundo Árabe venha a contagiar também o Sudão num futuro muito próximo. Assim sendo, é também provável que o Sul possa aproveitar o facto de Al Bashir poder estar a braços com uma complicada situação em Cartum, para fortalecer a sua posição em Abyei, uma região de fronteira entre o Norte e o Sul, ainda sem delimitações acordadas, muito rica em petróleo e zona de conflicto tribal.

De forma a evitar potenciais abusos de parte a parte, defenderei uma eventual iniciativa da criação, o quanto antes, de uma força internacional para a securização da fronteira. Idealmente esta seria apadrinhada pelos EUA, mas dado que os fantasmas de Mogadishu ’93 ainda assombram a Casa Branca, temo que esta seja uma possibilidade demasiado remota.

Como alternativas, surgem a União Africana ou uma nova Missão das Nações Unidas. Parece-me desde logo que uma força da UA não tenha a capacidade de responder adequadamente a uma situação que tem todos os ingredientes necessários para um potencial genocídio, pelo que urge ao Conselho de Segurança da ONU (sem dúvida um ‘mal menor’) discutir a criação de uma Missão especialmente dedicada ao patrulhamento da fronteira, como de resto existe já, se bem que em moldes diferentes, entre a Índia e o Paquistão, a Eritreia e a Etiópia, e o Líbano e Israel.

Além do mais, tenho o pressentimento de que a actual Missão da ONU no Sudão (UNMIS) se tornará rapidamente obsoleta, já que é presumível que a vontade de al-Bashir seja ver-se livre dos ‘capacetes azuis’ assim que se torne efectiva a independência do Sudão do Sul. Tomando em consideração esta presumível vontade, seria preferível que a ONU se antecipasse com um plano e um propósito claro, aproveitando os poucos trunfos que ainda terá junto do Presidente Sudanês, para consituir um projecto que possa ser apoiado pelos dois governos.

Finalmente, convém referir que, verificando-se revoltas nas ruas de Cartum, seria do maior interesse para al-Bashir ter uma força de salvaguarda da sua fronteira a Sul, mesmo que este não tenha, para já, capacidade ou interesse em o admitir. Escusado será dizer que esta opção servirá ao mesmo tempo os interesses do Sul, mesmo que seja em potencial detrimento de algum território.

(Desta questão omiti propositadamente o Darfur, já que o paradigma de fronteiras deste território assume contornos bastante diferentes)

(Também aqui)

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