29 de abril de 2011

Da Doutrina Republicana

Quando do outro lado do debate os argumentos contra a monarquia revelam tamanha solidez, dou por mim a reconsiderar as minhas convicções.

Eis algumas das alarvidades em forma de comentário lidas na página do evento do Facebook "Abaixo a monarquia!":
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- Abaixo a monarquia! Enquanto os trabalhadores são atacados em seus direitos por conta da crise econômica mundial, a monarquia inglesa vive no luxo sem trabalhar! A solução esta na forca ou na guilhotina! Cortem as cabeças! Cortem as cabeças!

- A morte de todo descendente de família real é a única garantia de que não houvesse o seguro de sangue, isto é, garantido pela descendência dos nobres, de que algum parente de nobre possa reivindicar o título real.

- O ÚLTIMO REI SERÁ ENFORCADO NA TRIPA DO ÚLTIMO PADRE!!!
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Quando assim é, a doutrinação monárquica não deverá passar tanto pela destruição de mitos como pela distribuição de lambadas.

18 de abril de 2011

Tãtã au Congo

Caro Nuno, já há uns anos que vão surgindo alguns patetas alegres, desconsolados, a exigir a censura desse livro. Puro entretenimento... não fosse o facto de outros patetas alegres lhes darem ouvidos! A propósito (ou não), lembrei-me de um post que escrevi em 2007:

Como já todos sabem, Joseph Kabila ganhou as eleições na República Democrática do Congo em fins de 2006. Dia 5 de Fevereiro o Presidente nomeou os 60 membros do Governo do Primeiro Ministro Antoine Gizenga (6 Ministros de Estado, 34 Ministros e 20 Vice-Ministros).

Kasongo Ilunga é nomeado Ministro do Comércio Externo, escolhido de uma lista apresentada pelo seu partido, o UNAFEC (União dos Nacionalistas Federalistas do Congo), liderado por Honorius Kisimba Ngoy.

Ora bem, a lista apresentada ao Primeiro Ministro pelo UNAFEC para potenciais Ministros do Comércio Externo era composta por dois ilustres nomes: Honorius Kisimba Ngoy, líder do partido, e Kasongo Ilunga. Como já havia referido, Antoine Gizenga escolheu Ilunga, em detrimento de Ngoy.

Dia 12 de Fevereiro, alegando razões pessoais, Kasongo Ilunga apresenta ao Governo a sua carta de demissão, o que honestamente me deixou algo perturbado, visto ele ter sido possivelmente o melhor ministro a ter passado alguma vez pelo Congo (e talvez mesmo por toda a África).

Pela sua personalidade carismática, pela sua postura firme e pelo facto de se apresentar como uma pessoa passivel de desempenhar um papel fulcral para tirar o Congo da grave crise em que se encontra mergulhado desde há várias décadas, a sua demisão veio decepcionar todo o país e levou mesmo o Primeiro Ministro a chamá-lo a prestar declarações, na tentativa de demovê-lo das suas intenções.

Long story short, rapidamente se veio a descobrir que o Excelentíssimo Senhor Ministro Kasongo Ilunga, pura e simplesmente, não existe.

O Ministro do Comércio Externo da RDC, em funções de 6 a 12 de Fevereiro de 2007... não existe.


O Presidente Kabila, coitado, ficou algo aborrecido. Aborrecida ficou também a população, que rapidamente agendou uma manifestação em Kinshasa de solidariedade para com Kasongo. E no meio disto tudo, quem ficou verdadeiramente inconsolável foi o próprio Kasongo Ilunga, o único que não teve culpa nenhuma e que viu o seu nome ficar eternamente associado a este caricato episódio político.

Em declarações exclusivas ao africancompunction, Ilunga afirma que “apesar da tristeza de ter que ter desaparecido assim de repente e das comichões com que fiquei depois da combustão instantânea, resta-me o consolo de ter ficado com o nome registado nas páginas doiradas da Wikipedia”.

Depois não me digam que não sao todos um bocadinho:


Kasongo Ilunga... Até sempre!

12 de abril de 2011

O Burundi e o FMI

A chuva caía ligeira sobre a estrada para Bujumbura. O Lago Tanganica, desde há já algumas horas, vinha-me fazendo companhia pelo lado esquerdo do carro e, à direita, o Sol começava finalmente a dar sinais de si. Acendi um cigarro enquanto o Tom Waits me lia a Christmas Card from a Hooker in Minneapolis. Foi na manhã de Sábado que cheguei à capital deste pequeno Burundi, algures esquecido pelo mundo à conta dos mais mediáticos vizinhos Ruanda, Congo e Tanzânia.

Nesta manhã de Sábado, como em todas as manhãs de Sábado, pequenas multidões se distribuiam ao longo da estrada, algumas sorrindo outras indiferentes, todas exemplarmente ordenadas: cumpriam o serviço comunitário obrigatório limpando a cidade, mantendo as estradas, apanhando o lixo. Todas estas pessoas – que mais não são do que o todo da população comum: o médico, o estudante, o pescador, o electricista – aparentam aceitar com impressionante naturalidade o trabalho que lhes é forçado por decreto. Uma verdadeira lição de civismo, que bem poderia servir de exemplo para os Portugueses.

Os resultados são tão evidentes para quem visita o país, quanto passam despercebidos para quem nele vive. O Burundi é um país limpo e organizado, as belíssimas praias nas margens do lago são pequenos paraísos quase desconhecidos e o povo é dos mais simpáticos e acolhedores do que tenho visto por África.



Como resultado da intervenção de militares na Missão da União Africana na Somália, o Burundi tornou-se recentemente alvo de atentados terroristas por parte de grupos extremistas, destabilizando o país internamente. O número de mortos no terreno, aliado a campanhas de propaganda que apelam à desobediência militar tem gerado alguns receios de novas revoltas no país, ao que a pequena Missão de Observadores da ONU no Burundi tem resistido aos apelos de desmobilização.

Sem perspectivas de voltar a este país nos próximos anos, espero também não ter os piores motivos para sobre ele voltar a escrever, contrariando as espectativas de analistas mais pessimistas do que eu.

E para não destoar muito do assunto do momento, ofereço-vos um link com uma série de documentos extremamente aborrecidos sobre o Burundi e o FMI.

5 de abril de 2011

Vôo da ONU despenha-se na RDC

4 de Abril 2011 – Um Bombardier CRJ-200 das Nações Unidas despenha-se em Kinshasa matando 32 pessoas, de acordo com os dados mais recentes. A aterragem falhada deveu-se à chuva e ventos fortes que levaram o avião a embater com força na pista, desfazendo-se e incendiando-se de imediato. As últimas informações indicam um sobrevivente em estado crítico. (veja as imagens aqui)


25 de Agosto 2010 – Um Let-410 (pequeno jacto Checo) despenha-se em Bandundu matando 19 pessoas. O piloto perdeu o contrôlo do avião quando todos os passageiros correram para o cockpit em pânico, fugindo de um crocodilo que passeava pela cabine, depois de se ter soltado das cordas que o amarravam durante o vôo. Para além do único sobrevivente que ficou em coma durante alguns dias antes de recuperar a consiciência, também o crocodilo resistiu à queda, tendo sido depois morto pelos populares que procediam à procura de sobreviventes.

29 de Abril 2009 – Um Boeing 737 despenha-se em Bandundu, a cerca de 200 Km a Sudoeste de Kinshasa. O avião, que provocou a morte aos 7 tripulantes, dirigia-se de Bangui a Harare para fazer manutenção de rotina. As causas não foram confirmadas, apesar de se mencionar uma explosão em alguns dos relatórios preliminares.

15 de Abril 2008 – Um DC-9 falha a descolagem em Goma (fronteira com o Ruanda) e despenha-se numa área residencial próxima do aeroporto, provocando a morte a mais de 20 pessoas entre passageiros, tripulantes de bordo e outros que se encontravam no local.

4 de Outubro 2007 – Um Antonov-26 (Cargo) despenha-se no bairro residencial de Kingasani, em Kinshasa, pouco depois de levantar vôo. Apenas dois dos 28 ocupantes do Antonov sobrevivem, tendo o acidente feito várias outras vítimas que se encontravam no local onde o avião se despenhou. Este, tendo os depósitos de combustível cheios, pegou fogo de imediato aumentando o pânico e a tragédia.

A RDC conta nos seus registos com aproximadamente metade de todos os acidentes de aviação em África. Só em 2007 apresentou um registo de 24 aviões despenhados, estando todas as companhias aérias Congolesas na lista negra da aviação internacional. Num país da dimensão da Europa Ocidental onde as ligações terrestres são práticamente inexistentes, o transporte aério apresenta-se como absolutamente fundamental para a comunicação nacional interna.

Quem já apanhou um vôo comercial neste país pôde com certeza observar que virtualmente todos os passageiros passam o vôo inteiro a rezar e nunca falha o aplauso emotivo ao piloto a cada aterragem feita em segurança. Até eu, que detesto o hábito, (e confesso não sem alguma vergonha) aplaudi por uma vez o piloto de um vôo que, algures entre Lubumbashi e o fim do mundo, já mais não era, na minha absoluta certeza, que uma mera estatística.