19 de outubro de 2011

A democracia caiu de podre

Este título é uma vergonha, eu sei... Só uma criança ou um imbecil poderá alguma vez supôr a existência de uma democracia em Portugal, agora ou algures perdida no tempo.

Os sonhos de um mundo novo, a partir de 1910, nunca passaram de fantasias. A ilusão da Primavera Marcelista só foi superada pela grande farsa de Abril.

Do conceito de ética republicana, por ser tão romântico quanto vazio, nada mais se aproveitou que  a confusão generalizada. Da confusão nasceu o caos e do caos pariu-se a ordem possível, fruto de um tempo e de um estado sem sentido.

Como não há ventos favoráveis para quem navega sem rumo, Portugal foi deixado à deriva, oscilando ao sabor das correntes da moda, ora julgando-se personagem do grande sonho americano, ora vagueando aparvalhado dentro do pesadelo europeu.

Vendeu-se a alma a troco de uma esmola, e outra, e ainda mais uma, e depois, de cara deslavada e barriga cheia de nada, achou-se por bem que se não pagássem dívidas.

Tentou vender-se que a falência não é evidente quando a sobrevivência depende de um  crédito que, perpétuo, se multiplica exponencialmente. Como se alguém pudésse cavar um buraco infindo.

E agora vão as crianças e os imbecis à rua, pedir merdas e porra nenhuma, como se a merda ou porra nenhuma fosse coisa alguma.

Quer-se soluções, acorde-se para a realidade: é matemáticamente impossível gastar-se mais do que se produz; é moralmente incomportável não pagar o que se deve.

Quer-se soluções, acorde-se para a realidade: estamos sujeitos aos interesses de gangues subornáveis, subordinados e corrompidos; e fomos nós quem lhes legitimou o lugar cativo ao leme da Nau de São Bento, da Caravela de Belém, do luxuoso navio que se afunda a cada dia.

Quer-se soluções, acorde-se para a realidade: a nossa constituição não presta; o nosso sistema não serve.

Precisa-se de um contra-poder aos poderes instituídos, mas que seja ao mesmo tempo independente, que tenha autoridade e que seja capaz: precisa-se de alguém que seja tudo o que o Presidente da República não é – uma homem dependente dos partidos que o elegeram; um homem sem um pingo de autoridade; um homem que é um incapaz, transfigurado nos quatro rostos que democraticamente lhe vestiram a pele, ou nos oficiais dezanove que a história de um centenário reza.

Precisa-se de um parlamento bicameral, possivelmente num misto daquilo que previu a constituição de 1933 conjugado com um sistema de eleição indirecta, mas que garanta e represente acima de tudo os interesses de Portugal.

Precisa-se... de tanta coisa, é verdade, mas precisa-se acima de tudo de um rumo.

Sem comentários:

Enviar um comentário