2 de janeiro de 2012

Desmistificando a questão Síria (I)



Cada vez mais me convenço de que a jogada política para a Síria que está a ser encenada pelos media internacionais é um erro, é perigosa e, felizmente, tem poucas possibilidades de sucesso. Para compreender o complexo regime liderado por al-Assad convém recordar algumas das alianças improváveis que têm sido estabelecidas e enraízadas desde há décadas à luz dos interesses económcos internos.

O estabelecimento do regime de Hafez al-Assad, pai do actual presidente (líder do partido Baath, da minoria Alauita), em muito se deveu à aliança que conseguiu “sacar a ferros” com a comunidade mercadora Sunita de Damasco, na década de 70. Acreditava-se, na altura, que sem o apoio desta facção, o regime ainda embrionário entraria em colapso, e a impressão generalizada era a de que a maioria Sunita iria de facto impedir a continuação do regime. Surpreendentemente não foi o caso. Nas negociações que tiveram lugar à porta fechada, havia um elemento importante que jogava a favor de al-Assad – o facto dos líderes Sunitas acreditarem que a cidade de Damasco estava cercada por militares favoráveis ao regime e que, após uma década de lutas nacionalistas, sangrentas e desgastantes, estavam genuinamente interessados na estabilidade do país, de forma a poderem também desenvolver a sua actividade económica.

É essencialmente na base desta aliança que o regime tem sobrevivido até aos dias de hoje, apoiado também na abertura política e económica que al-Assad pai e al-Assad filho têm garantido às diversas minorias do país, das quais a minoria Cristã – cerca de 10% da população – assume uma papel importante.

Da relativa estabilidade que dura desde a década de 70, há em particular uma facção que desde o início do regime causa algum incómodo ao poder central. Trata-se da comunidade mercadora Sunita de Aleppo, a segunda maior cidade do país, e que sempre se mostrou em desacordo, embora de forma discrecta, com a aliança dos Sunitas de Damasco com os Baath. É portanto fundamental entender este desconforto de Aleppo, que tem estado sempre presente, para assim se compreender algumas das movimentações políticas que têm tomado maior relevância, especialmente desde o início deste ano.

(Continua)

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