3 de janeiro de 2012

Desmistificando a questão Síria (II)



Dizía então que há um importante grupo de mercadores Sunitas em Aleppo para o qual a aceitação do regime de al-Assad mais se deveu à resignação do que à vontade, num incómodo que nunca se dissipou e se sente recíproco entre as duas partes. É importante então juntar à equação um outro elemento, um fenómeno que nasceu com o regime e que a ele está intimamente ligado, ao ponto de ser recorrente confundir-se um com o outro. Falo dos awlad al-sultah, que em Português se traduzirá em qualquer coisa como os filhos da autoridade, e compreende em grande parte familiares e correligionários de al-Assad.

O fenómeno awlad al-sultah não é algo propriamente original; é comum, quase universal, surgir uma nova elite económica com estreitas ligações ao poder, aquando do estabelecimento de novos regimes. A forma pela qual esta nova elite foi ganhando poder, sobretudo nas décadas de 80 e 90, também não surpreende: tráfico de influências, apropriação ilegal de recursos públicos, desvio de fundos, etc. Fazendo ‘bom’ uso dos recursos ao seu dispôr, os awlad al-sultah foram ganhando poder ao longo dos anos, estabelecendo uma verdadeira oligarquia em ramos específicos da economia Síria.

A mais ou menos pacífica convivência entre os alwad al-sultah e os mercadores Sunitas deveu-se ao facto de terem sido definidos implicitamente os sectores do mercado que a cada parte ficariam reservados. Em termos gerais, pode dizer-se que a facção Sunita administra a industria de produção tradicional, enquanto que a nova elite ligada ao poder domina aquilo a que chamam a industria não-produtiva – telecomunicações, petróleo, media, restauração, ensino, etc. Uma certa harmonia foi assim estabelecida, em que cada grupo se limitava à sua esfera de mercado, evitando interferências fora dela.

Os primeiros e mais visíveis sinais exteriores de desconforto surgiram já na década de 2000, como resultado do cada vez maior crescimento dos alwad al-sultah, e a consequência natural de alguns deles terem tentado incursões por indústrias que não eram, por tácito acordo, as suas, nomeadamente uma famosa disputa pela representação da Mercedes-Benz. Sendo o ramo automóvel históricamente domínio da ala Sunita, a tentativa de apoderação desta representação, através de pressões internas, por Rami Makluf, um dos primos de Al-Assad,  foi tomada pelos Sunitas como uma traição. Este episódio constituiu um ponto de honra, e só através de muita persistência e alguns sacrifícios conseguiram os Sunitas manter a sua posição.

Este início de conflicto pelo poder económico motivou várias mudanças de estratégia por parte da classe Alauita dominante, entre as quais se inclui o novo programa de reformas, traçado em linhas gerais a partir do meio da década passada, e que se pretende ver materializado na nova Constituição que está actualmente a ser discutida. Uma Constituição moderna que, como nos disse recentemente S.A.R. o Senhor D. Duarte, segue o modelo geral da actual Constituição Marroquina.

(Imagem daqui)

(Continua)

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