15 de fevereiro de 2012

Referendo para a nova Constituição na Síria

em várias ocasiões referi a importância que tem o factor Constituição no futuro da Síria. Conforme tinha sido anunciado, e findo o prazo de 4 meses establecido por decrecto pelo presidente (16 de Outubro de 2011) para a conclusão do documento, eis então anunciado que a aprovação da nova Constituição será feita por referendo, a realizar-se no dia 26 deste mês.

Apesar de não ter tido ainda acesso ao texto, as boas espectativas que guardava parecem confirmar-se. De acordo com os poucos dados revelados pela agência The Associated Press, que já reviu o documento, “o sistema político será baseado no pluralismo político, e o poder será praticado democraticamente através do voto”. Esta medida porá fim ao actual sistema onde a liderança está garantida ao partido Baath pela Constituição de 1973, ainda vigente. Os mandatos individuais estarão ainda limitados a dois termos de sete anos, e as primeiras eleições parlamentares terão lugar 90 dias após a aprovação da Constituição.

Ao mesmo tempo, a minha profunda desconfiança em relação aos movimentos de contestação também se mantem, especialmente face à sua pronta rejeição do anunciado referendo. Sendo que uma das suas exigências primordiais era a revisão constitucional, e dado que sempre se assumiram como um movimento democrático, esta rejeição é afinal bastante reveladora das verdadeiras intenções daqueles que se auto-denominam o Corpo de Coordenação Nacional para a Mudança Democrática na Síria, que parecem insistir unicamente na deposição do actual presidente como a solução para todos os problemas do país.

Tudo leva a crer que, na realidade, as forças de segurança do país vêm respondendo com brutalidade, à brutalidade com que elementos destabilizadores põem em causa o futuro do país e, em larga escala, da região. Assim, como resultado dos onze meses em que este conflicto foi mais intenso, o número de mortos ascende já aos muitos milhares e – é quase matemático – por cada morte será gerado mais ódio e de cada massacre nascerá um ressentimento impossível de apagar. Tudo isto perdurará inevitavelmente na alma do país, fruto de uma memória que hoje se constrói à custa de inúmeros erros que se não souberam evitar.

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