15 de março de 2012

Cerelac

Existem várias formas de o preparar, Rita, mas só uma é perfeita:

Thursday throughout Thursday

A bit of Donovan in the morning hours - Jersey Thursday


Bowie in the afternoon - Thursday's Child


And Thursday by night - Understanding In a Car Crash

14 de março de 2012

Naufrágios II

Nesta segunda edição da série Náufragos: o que raio vieste cá tu fazer? irei prestar um serviço público a um determinado grupo de risco que, de acordo com um estudo norte-americano, se encontra em franco crescimento: falo, obviamente, do grupo de indivíduos que perderam sujeitos coloniais.


A primeira sugestão, e também a mais óbvia, é o ponto de partida mais elementar para qualquer busca de um objecto perdido: procure atrás do sofá.

Se acaso não tiver encontrado os sujeitos coloniais atrás do sofá, é bastante provável que os encontre imediatamente antes dos predicados coloniais.

Nada? E que tal pôr um anúnico nos pacotes de leite da maior cidade do estado da Renânia do Norte Vestfália?

Em desespero, poderá ainda procurar aqui, nesta obra prima de 1994 de Sid Meier, disponível para download - provavelmente ilegal - aqui.

E se nenhuma destas sugestões resolveu o seu problema, resta-lhe ainda a derradeira opção de encontrar sujeitos coloniais na fotografia que abaixo segue. Boa sorte!

(clique na imagem para a aumentar, facilitando a procura dos sujeitos coloniais)

Estive quase para desenvolver o tema dos sujeitos coloniais à luz do conceito pan-óptico foucaultiano abordado em Surveiller et Punir (1975), leitura que suspendi recentemente. Cheguei até a esboçar um post neste sentido, mas abandonei-o quando percebi que era um assunto demasiado complexo para o tempo que eu tenho disponível e a seriedade a que esta série me obriga. Deixo no entanto aqui a devida referência com um propósito claro: no caso de alguém se fazer ao mar à procura deste assunto e tiver o descaramento de vir dar ao Árvores Despidas através de um motor de pesquisa identificável pelo Sitemeter, retomarei tanto o livro como o post guardado em rascunho.

When Your Mind's Made Up


So, if you want something
And you call, call
Then I'll come running
To fight and I'll be at your door
When there's nothing worth running for

13 de março de 2012

Naufrágios I

Caro cidadão,

Enquanto você anda distraído com assuntos de somenos importância, fique a saber que há todo um universo replecto de coisas maravilhosas que se desenvolve ao seu redor como fungos em pé-de-atleta. O anel de bigode é disto apenas um exemplo.


É claro que, para o cidadão comum, anéis de bigode soará a uma pouco harmoniosa conjugação aleatória de palavras escolhidas ao acaso. Ora comece então por desenganar-se, libertando-se, por favor, de preconceitos. A série Naufrágios – o que raio vieste cá tu fazer? foi também feita a pensar em si, cidadão comum, para abrir a sua mente.

O bigode, como todos sabem, é talvez o mais evidente sinal exterior de aristocracia, e esteve até há bem pouco tempo reservado para uma pequena elite merecedora de tamanha distinção divina. Uma elite particular que, aliás, se desobra pelos dois géneros, ao contrário do que julga a maioria. Já o anel, na sua forma circular completa, perfeita, representa a confiança, a determinação e a certeza da vitória, atributos notoriamente difíceis de domesticar pelos pobres de espírito.

O anel e o bigode simbolizam assim tudo aquilo que está vedado, pela graça selectiva de Deus e pelas misteriosas designações da natureza humana, à quase totalidade dos homens e das mulheres deste mundo. A imagem de um patamar que você, certamente, nunca poderá atingir.

Errado.


Agora, e por apenas 44 Reais Brasileiros, (menos de 20 Eur, mais portes de envio), você poderá possuir um destes maravilhosos adereços, incrivelmente útil  para inverter virtualmente qualquer situação embaraçosa em que possa vir a encontrar-se. Algo, portanto, fundamental para levar consigo durante todos os dias do ano. Para isso, basta seguir esta ligação (carregue em “esta ligação”, idiota).

Mas há mais! Caso esteja a sentir na pele os violentos efeitos da crise económica que atravessamos, não se preocupe que o Árvores Despidas pensou também em si. Por um valor bastante mais em conta, poderá também juntar-se ao clube exclusivo de portadores de anel de bigode, embora isso implique que seja colocado automaticamente numa divisão inferior. Pormenores desagradáveis à parte, fique então a saber que poderá você também adquirir um anel de bigode de pobre por apenas 3 Dólares Americanos, seguindo esta ligação.


Seja feliz, volte sempre, e não se esqueça:

Não há ventos favoráveis para quem navega sem rumo, a não ser que o vento o traga ao Árvores Despidas.

Naufrágios

Se em várias ocasiões me engano, noutras tantas não tenho dúvidas: uma das coisas mais fascinantes de ter um blogue é a possibilidade que nos é dada de descobrir até que ponto é que vocês, – caros visitantes do acaso, queridos leitores de circunstância, destemidos navegadores dos oceânicos motores de pesquisa, até que ponto é que vocês, dizia – os naufragos da blogosfera, são torpes, dementes ou tão simplesmente bizarros.

Este blogue é pessoa de bem e, como tal, evitarei tanto quanto possível a referência a termos menos próprios, oprobriosos ou ananicados.

E, assim sendo, decidi pegar nalgumas das procuras mais curiosas que vos trouxeram até mim, e desenvolver em post alguns dos temas mais fora do comum. Como este é um blogue essencialmente hipster, que não pretende chegar às massas (e aparentemente é também um blogue com vida própria, que se dá ao luxo de exibir personalidade, vontade e pretensões), ele irá pelo menos esforçar-se no sentido de disponibilizar uma série de informações precisosas, exclusivamente dedicada aos mais criativos dos cibernautas.

Pelo que declaro oficialmente aberta a série “Naufrágios – o que raio vieste cá tu fazer?


12 de março de 2012

Isobel Campbell & Mark Lanegan


Now after all, don't feel like nothing
 like walking away
 like a mouth full of rain
 at twelve o clock

 the bell starts ringing
 a dog starts barking
 and you're still missing
 

11 de março de 2012

Da Fé e dos Repolhos


No princípio da semana estive no Sul do Líbano a colher laranjas com um batalhão de famílias Shiitas. No fim do dia sentámo-nos à volta de uma fogareiro a beber café e a descascar engenhosamente clementinas com as crianças.

No dia seguinte segui para o Norte do país, para a quinta de um amigo Sunita. Fizémos a vistoria às novas plantações de batata e experiências com as sementes de alface que importámos da Austrália. Depois passámos o resto da tarde a fumar cigarros e a beber chá de gengibre, à sombra de uma oliveira, enquanto ele contava histórias improváveis, de outros tempos que não conheci.

Segui para as montanhas, território Maronita. O frio excepcional que fez este Inverno levou a que se perdesse quase metade da colheita de tomate, mas as videiras estão bem e recomendam-se. Quiseram ouvir música da minha terra: dei-lhes Amália e eles responderam com Fairuz. Mas no fim foi o Favas com Chouriço do José Cid, com direito a tradução simultânea, que mais entusiasmou a audiência.

Das lutas pelo poder, dos conflictos religiosos, das guerras com os vizinhos, por ali não reza a história. Das notícias só o tempo interessa. Ignoram o câmbio do dólar, mas sabem ao milímetro a quantidade de chuva que falta ainda caír. Várias gerações vivem aparentemente felizes numa mesma casa, e até as duas mulheres do meu amigo Sunita partilham pacíficamente o mesmo tecto.



Era só mesmo para dizer que o que eu gosto mesmo é do campo.

They say "Fairuz is our Amália"



بحبك يا لبنان
يا وطني بحبك
بشمالك بجنوبك
بسهلك بحبك

I love you Lebanon
My country, I love you
Your north, your south,
Your coast, I love you

10 de março de 2012

Algures em Caxemira


Fecho da fronteira em Wagah, Caxemira, entre a Índia e o Paquistão.

9 de março de 2012

KONY 2012

Deixo aqui algumas considerações em relação ao vídeo Kony 2012 que se tornou viral em poucos dias e motivou acesa discussão em diversas redes sociais.

O Lord’s Resistance Army (LRA), liderado por um lunático de graça Joseph Kony, e que sucede ao Movimento do Espírito Santo liderado pela não menos lunática Alice Auma, actua na região desde há mais de 25 anos. Os seus avanços e recúos são estratégia corrente, como diz, e bem, o vídeo citado, pelo que tudo indica que voltem a atacar em força à primeira oportunidade, caso essa possibilidade se apresente. Isto mesmo apesar de nunca terem estado sob tanta pressão, escorraçados que foram do Uganda, do Sudão (actual Sudão do Sul) e da República Democrática do Congo para a República Centro Africana, o seu último reduto.

Notei, há uns anos, com enorme surpresa e agrado, que os exércitos destes três países tinham unido esforços no propósito de eliminar este movimento, e se deslocavam juntos, atravessando fronteiras, atrás dos seus inimigos. Numa região mergulhada em micro-guerras desde há décadas, fortemente marcada por acesas rivalidades tribais, em constantes lutas por recursos minerais, água, alimento, e onde as populações são frequentemente usadas como instrumentos de lutas políticas que, no fundo, pouco lhes dizem respeito, esse episódio único que tive oportunidade de testemunhar foi de facto um momento histórico, e que traduz bem a importância da luta contra o LRA.

Tal como diz João Silveira, lido numa discussão do Facebook, o princípio da prudência é perfeitamente razoável, e não é preciso ter a “mania da conspiração” para perceber isso. Se algo, como neste caso o movimento Kony 2012, causa estranheza, é prudente não o divulgar antes de fazer alguma investigação a seu respeito. Por outro lado é evidente que o vídeo é muito apelativo à sensibilidade de qualquer pessoa, pelo que a “viralidade” com que tem sido divulgado não surpreende nem pode surpreender ninguém.

Em relação à campanha

Esta campanha é sem dúvida duvidosa. Para começar contém erros grosseiros em dois pontos fundamentais: nos números que apresenta de rebeldes e vítimas, e na omissão do factor petróleo. Para quem reclama estar a trabalhar no país há tantos anos, estes erros são inaceitáveis. Não sei se são resultado de ignorância ou má fé, mas em qualquer dos casos merece no mínimo a nossa desconfiança.

A contabilidade desta ONG é duvidosa e pouco transparente. Quem conhece minimamente o mundo das ONG de hoje, sabe que a falta de transparência, especialmente para projectos desta dimensão, vem geralmente acompanhada de uma auto-proclamada seriedade. Não obstante a eventual vitimização e o argumento recorrente de que “há sempre alguém a querer deitar abaixo”, a negação da possibilidade de auditorias externas é uma opção deles, pelo que têm que se sujeitar à desconfiança.

Devo dizer ainda que, ao contrário do que alguns têm tentado defender, é muito relevante que apenas cerca de 32% de um orçamento de mais de 8 milhões de dólares seja utilizado nos custos directos, nos quais se incluirão provavelmente custos de deslocação e alojamento. É aliás ridículo pretender tratar isto como um mero pormenor.

Quanto à “contra-campanha”, considero antes de mais que as referências ao “Uganda pouco democrático” e ao “apoio ao SPLA” é injusto e despropositado. Até porque, partindo desse princípio, seria impossível prestar qualquer tipo de apoio a virtualmente qualquer país do mundo (e certamente de África...).

É perfeitamente legítimo apoiar projectos específicos, organizados, com propósitos reais e resultados quantificáveis em cooperação com grupos como o Sudan People’s Liberation Army (SPLA), sem legítimar os abusos que são cometidos por eles fora desse projecto específico. Recordo que este exército, o braço armado de um movimento com o mesmo nome, encabeçou o movimento que conduziu à independência do Sudão do Sul, e o seu último líder é o actual presidente do novo país.

Por outro lado, falou-se da falta de democracia no Uganda, bem como dos abusos cometidos por Museveni, o presidente desde 1986, na sua caminhada para o poder desde meados da década de 80. Como sugestão de que os factores acima referidos tiram legítimidade a este movimento, estes argumentos são francamente desonestos e reduzem a complexidade do país e da sociedade a padrões que, obviamente, não se aplicam da mesma maneira que na Europa. Se os abusos existiram e continuam a existir, muito pouca relevância assumem neste caso particular.

A questão dos recursos

O lago Alberto situa-se entre a RDC e o Uganda e contém enormes reservas de petróleo, um facto que era desconhecido até há poucos anos. Esta descoberta foi tornada pública em 2006 e pude ver que, na altura do anúncio, os Americanos montaram no lado Congolês duas bases de formaçao militar enquanto começavam as negociação entre o governo e as empresas de exploração de petróleo. Assim que, de forma surpreendente, caíram as negociações com o governo Congolês (literalmente de um dia para o outro), as atenções viraram-se em exclusivo para o Uganda, onde as negociação estavam também já em curso. É importante referir que na RD Congo reina a corrupção elevada ao absurdo, de onde resulta uma quase anarquia em relação à exploração dos seus aparentemente infinitos recursos naturais. É evidente que existiriam condições mais favoráveis à exploração do lago a partir do lado Congolês, através de negócios e acordos feitos nos bastidores. Esta forma de negociação não é, de todo, estranha ao Uganda, mas é importante referir que se faz de forma muito menos escandalosa que na RDC, pelo que se poderia esperar uma maior legitimidade e transparência em negócios com Museveni e, consequentemente, maiores custos para as empresas exploradoras.

Mais uma vez, insisto na relevância desta questão ter sido omitida no vídeo da campanha. Pelo contrário, vão ao ponto de declarar que o Uganda não possui quaisquer recursos que interessem às outras potências mundiais.

Sendo que é provável que volte a este tema nos próximos dias, quero deixar claro que, não obstante a desconfiança que eu possa ter em relação a esta campanha, (razão pela qual decidi não divulgar o vídeo senão para fazer a devida referência neste artigo) todo o bem que dela possa surgir é algo que não deve nem pode ser ignorado. Também por isso não condeno que outros o partilhem.

Para terminar, e para que fique clara a minha posição em relação a outras insinuações que têm surgido: para mim é certo que Joseph Kony e o LRA constituem ainda uma ameaça real e por isso devem ser perseguidos até à captura do seu líder e à eliminação do seu exército.

1 de março de 2012

As Vantagens da República


As vantagens da República são essencialmente vantagens financeiras.




Não é tudo. Não é sequer o mais importante.



 
Mas ao menos que não fosse sempre e só para a mesma corja.