9 de março de 2012

KONY 2012

Deixo aqui algumas considerações em relação ao vídeo Kony 2012 que se tornou viral em poucos dias e motivou acesa discussão em diversas redes sociais.

O Lord’s Resistance Army (LRA), liderado por um lunático de graça Joseph Kony, e que sucede ao Movimento do Espírito Santo liderado pela não menos lunática Alice Auma, actua na região desde há mais de 25 anos. Os seus avanços e recúos são estratégia corrente, como diz, e bem, o vídeo citado, pelo que tudo indica que voltem a atacar em força à primeira oportunidade, caso essa possibilidade se apresente. Isto mesmo apesar de nunca terem estado sob tanta pressão, escorraçados que foram do Uganda, do Sudão (actual Sudão do Sul) e da República Democrática do Congo para a República Centro Africana, o seu último reduto.

Notei, há uns anos, com enorme surpresa e agrado, que os exércitos destes três países tinham unido esforços no propósito de eliminar este movimento, e se deslocavam juntos, atravessando fronteiras, atrás dos seus inimigos. Numa região mergulhada em micro-guerras desde há décadas, fortemente marcada por acesas rivalidades tribais, em constantes lutas por recursos minerais, água, alimento, e onde as populações são frequentemente usadas como instrumentos de lutas políticas que, no fundo, pouco lhes dizem respeito, esse episódio único que tive oportunidade de testemunhar foi de facto um momento histórico, e que traduz bem a importância da luta contra o LRA.

Tal como diz João Silveira, lido numa discussão do Facebook, o princípio da prudência é perfeitamente razoável, e não é preciso ter a “mania da conspiração” para perceber isso. Se algo, como neste caso o movimento Kony 2012, causa estranheza, é prudente não o divulgar antes de fazer alguma investigação a seu respeito. Por outro lado é evidente que o vídeo é muito apelativo à sensibilidade de qualquer pessoa, pelo que a “viralidade” com que tem sido divulgado não surpreende nem pode surpreender ninguém.

Em relação à campanha

Esta campanha é sem dúvida duvidosa. Para começar contém erros grosseiros em dois pontos fundamentais: nos números que apresenta de rebeldes e vítimas, e na omissão do factor petróleo. Para quem reclama estar a trabalhar no país há tantos anos, estes erros são inaceitáveis. Não sei se são resultado de ignorância ou má fé, mas em qualquer dos casos merece no mínimo a nossa desconfiança.

A contabilidade desta ONG é duvidosa e pouco transparente. Quem conhece minimamente o mundo das ONG de hoje, sabe que a falta de transparência, especialmente para projectos desta dimensão, vem geralmente acompanhada de uma auto-proclamada seriedade. Não obstante a eventual vitimização e o argumento recorrente de que “há sempre alguém a querer deitar abaixo”, a negação da possibilidade de auditorias externas é uma opção deles, pelo que têm que se sujeitar à desconfiança.

Devo dizer ainda que, ao contrário do que alguns têm tentado defender, é muito relevante que apenas cerca de 32% de um orçamento de mais de 8 milhões de dólares seja utilizado nos custos directos, nos quais se incluirão provavelmente custos de deslocação e alojamento. É aliás ridículo pretender tratar isto como um mero pormenor.

Quanto à “contra-campanha”, considero antes de mais que as referências ao “Uganda pouco democrático” e ao “apoio ao SPLA” é injusto e despropositado. Até porque, partindo desse princípio, seria impossível prestar qualquer tipo de apoio a virtualmente qualquer país do mundo (e certamente de África...).

É perfeitamente legítimo apoiar projectos específicos, organizados, com propósitos reais e resultados quantificáveis em cooperação com grupos como o Sudan People’s Liberation Army (SPLA), sem legítimar os abusos que são cometidos por eles fora desse projecto específico. Recordo que este exército, o braço armado de um movimento com o mesmo nome, encabeçou o movimento que conduziu à independência do Sudão do Sul, e o seu último líder é o actual presidente do novo país.

Por outro lado, falou-se da falta de democracia no Uganda, bem como dos abusos cometidos por Museveni, o presidente desde 1986, na sua caminhada para o poder desde meados da década de 80. Como sugestão de que os factores acima referidos tiram legítimidade a este movimento, estes argumentos são francamente desonestos e reduzem a complexidade do país e da sociedade a padrões que, obviamente, não se aplicam da mesma maneira que na Europa. Se os abusos existiram e continuam a existir, muito pouca relevância assumem neste caso particular.

A questão dos recursos

O lago Alberto situa-se entre a RDC e o Uganda e contém enormes reservas de petróleo, um facto que era desconhecido até há poucos anos. Esta descoberta foi tornada pública em 2006 e pude ver que, na altura do anúncio, os Americanos montaram no lado Congolês duas bases de formaçao militar enquanto começavam as negociação entre o governo e as empresas de exploração de petróleo. Assim que, de forma surpreendente, caíram as negociações com o governo Congolês (literalmente de um dia para o outro), as atenções viraram-se em exclusivo para o Uganda, onde as negociação estavam também já em curso. É importante referir que na RD Congo reina a corrupção elevada ao absurdo, de onde resulta uma quase anarquia em relação à exploração dos seus aparentemente infinitos recursos naturais. É evidente que existiriam condições mais favoráveis à exploração do lago a partir do lado Congolês, através de negócios e acordos feitos nos bastidores. Esta forma de negociação não é, de todo, estranha ao Uganda, mas é importante referir que se faz de forma muito menos escandalosa que na RDC, pelo que se poderia esperar uma maior legitimidade e transparência em negócios com Museveni e, consequentemente, maiores custos para as empresas exploradoras.

Mais uma vez, insisto na relevância desta questão ter sido omitida no vídeo da campanha. Pelo contrário, vão ao ponto de declarar que o Uganda não possui quaisquer recursos que interessem às outras potências mundiais.

Sendo que é provável que volte a este tema nos próximos dias, quero deixar claro que, não obstante a desconfiança que eu possa ter em relação a esta campanha, (razão pela qual decidi não divulgar o vídeo senão para fazer a devida referência neste artigo) todo o bem que dela possa surgir é algo que não deve nem pode ser ignorado. Também por isso não condeno que outros o partilhem.

Para terminar, e para que fique clara a minha posição em relação a outras insinuações que têm surgido: para mim é certo que Joseph Kony e o LRA constituem ainda uma ameaça real e por isso devem ser perseguidos até à captura do seu líder e à eliminação do seu exército.

3 comentários:

  1. Obrigada Felipe por nos ajudares a perceber este assunto com bom senso. Como aliás neste blog costumas fazer sobre outros assuntos. Acho que é importante - como o fizeste - separar o assunto que o filme trata e os erros ou falhas que podem haver (como a grave omissão do petroleo) das falhas da organização em si (que a existirem são gravissimas e devem ser denunciadas). porque são dois assuntos muito diferentes.

    Como dizes a prudência é aconselhada e uma investigação pessoal deve ser feita - aliás como em qualquer outro caso em que vás dar o teu dinheiro, o teu tempo ou o teu nome. e é verdade que ao recusarem uma auditoria independe arriscam-se à desconfiança. mas a prudência e a desconfiança não são o mesmo que julgamentos precoces. não me parece que ainda hajam provas suficientes para "condenar" a organização e assim sendo a contra campanha pode arruinar um trabalho enorme de milhares de pessoas bem intencionadas. sei que não é um detalhe a percentagem do dinheiro que parece ir para o sitio menos próprio mas rotular o projecto todo como uma vigarice tem sido o que mais me incomoda em vários comentários.

    Em relação ao filme tirando a omissão do petroleo, ao contrário do que alguns comentários tentaram sugerir não fiquei com a ideia que nos queriam convencer de que Kony continua a fazer tantas vitimas, nem que este assunto era recente, a ideia com que fiquei é que temos que levar Kony a justiça pelo que fez no passado e continua a fazer com menos força (e menos concentrado no uganda).

    básicamente... obrigada por deixares aqui tão claro, de uma forma breve, o contexto da LRA e das "crianças invisiveis " e ao mesmo tempo das coisas que não batem certo tanto no filme como na organização de forma ponderada e informada.

    pergunto-te que estás mais por dentro deste assunto... a intervenção dos estados unidos que já houve foi pacifica? não se percebe no filme exactamente o que foram lá fazer e qual o plano para se ficarem?

    beijinhos

    Ana

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  2. Merci :)
    Oficialmente, a intervençao dos Estados Unidos é o aconselhamento do exército Ugandês exclusivamente no domínio da operaçao de captura do Joseph Kony. No entanto está contemplada a possibilidade de se envolverem directamente nas operaçoes, e por isso foram enviados com material de combate. Está longe, portanto, de ser uma intervençao agressiva.

    No Congo o objectivo já é diferente, ali eles têm a missao de formar as altas patentes militares, num programa paralelo ao da Uniao Europeia, que já o faz há mais de uma década. A relevancia disto é o facto da perseguiçao ao Kony dar-se pelos dois países, e daí a influência acrescida que os EUA podem ter nessa operaçao, actuando através de missoes distintas e com exércitos de países diferentes.

    (enquanto podem ter alguma responsabilidade na actuaçao dos ugandeses, enquando "indirectamente" sob o seu comando, nao terao nenhuma responsabilidade na actuaçao dos congoleses, já que o seu trabalho acaba teoriamente na formaçao dada dentro dos campos militares)

    Bjs

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