29 de maio de 2013

Do Amor e das Paixões

Tal como o ébrio que tropeça pelo caminho, não se apercebendo do seu desiquilíbrio, também aquele que está agrilhoado às paixões da alma constrói a realidade na base da projecção da sua visão distorcida, acontecendo que este que se deixa dominar pelas paixões, deixa de ver a verdade, passando a ver apenas a sua própria paixão.

O ‘amor’, conceito utilizado como argumento central na recente onda de legalizações estapafúrdias que varre o Ocidente não passa de uma construção ideológica que ganha força nas paixões que enebriam os incautos.   Estas paixões, hoje mais do que nunca, são meticulosamente estudadas, exploradas e comercializadas. As sensibilidades são transpostas para uma tabela de zeros e uns para serem subsequentemente vendidas pelo menor denominador comum.

A política encontra-se submetida, antes de mais, aos partidos políticos que concretizam a sua engenharia social através destes processos mecanizados. Antes de mais estes criam artificialmente as paixões, e depois despendem os seus esforços e recursos alimentando estas mesmas paixões (traduzindo-as em votos), manipulando a generalidade do debate público e levando-o até à quase exaustão, ao mesmo tempo que o esvaziam de substância.

No entanto, este debate evita o apelo ao intelecto porque se situa numa dimensão ideológica. Ele é alimentado exclusivamente pelas paixões. Como diz Olavo de Carvalho, no seguimento do seu famoso debate com Aleksandr Dugin, “o discurso do ideólogo não prova: dá ordens, camuflando-as, para não ofender os mais sensíveis, numa imitação de juízos da realidade”.

Foi neste contexto que, por exemplo, a discussão sobre o casamento homossexual e a co-adopção saiu da órbita dos princípios para entrar numa esfera subjectiva e individualista em que da excepção se fez a norma e em que o erro foi sendo progressivamente relativizado até que fosse finalmente aceite. Desligado da razão, o debate transformou-se apenas na ridicularização de posições adversárias, arremessando-se disparates e ataques ad hominem disfarçados de argumentos, na tentativa vã de desqualificar a realidade indesmentível dos factos.

“A prova só é possível quando você desce do patamar semântico das discussões correntes, estufado de pressupostos oculltos e conotações nebulosas, desmembra tudo analiticamente em juízos explícitos e os confronta com os dados iniciais, universais e auto-evidentes, da existência humana.” (idem)

O resultado é a emergência de uma poderosa massa amorfa constituída por uma multidão encandeada pela ilusão da individualidade que mais não faz do que repetir mecanicamente aquilo que é ditado por uma pérfida elite de interesses obscuros. E é no mínimo paradoxal que esta multidão defina explicitamente a Igreja Católica como a inimiga por excelência, acusando esta de sufocar o livre arbítrio. Reparem bem no quão absurda é esta situação! Uma multidão de carneiros uniformizados exclamando num coro de indignação que os cristãos não são capazes de formular uma opinião própria!

Como referi anteriormente, trata-se de uma multidão aprisionada pelas paixões da alma que contrói uma realidade, neste caso o ‘amor’, distorcido pela sua visão corrompida da verdade. Transcrevo a este propósito um excerto de C. S. Lewis, na introdução de The Screwtape Letters, em que este aborda a questão das paixões e da individualidade, e nos apresenta uma distinção entre diferentes conceitos de amor:

"Mesmo no contexto de vida humana, vemos a paixão dominar (quase mesmo devorar) uma pessoa à outra. Isto faz com que toda a vida emocional e intelectual do outro sejam a tal ponto apagadas que se reduzam a meros complementos da própria paixão. O indivíduo passa então a odiar como se o agravo fosse sobre si mesmo, devolver ofensas como se ele tivesse sido ofendido, enfim, tem sua individualidade totalmente dissolvida, assimilando desta forma a do objecto de sua paixão. Embora na Terra chamem isto de "amor", imagino que passe longe do conceito de amor que Deus nos legou (ver I Co 13). No Inferno, identifico este tipo de sentimento com a fome; e neste Inferno, a fome é mais feroz e a satisfação desta mais viável.

Em síntese, Deus se compraz em pedir ao homem sua individualidade, mas tão logo o homem a cede, o maior prazer de Deus é devolvê-la aprimorada. Deus bate à porta, ao passo que o Diabo a arromba. O Espírito Santo enche, os diabos possuem."

A verdade só pode portanto existir em plenitude se aliada à liberdade, porque a essência da verdade é o facto de ela ser proposta e poder ser seguida; ela não pode nunca ser imposta. Mas hoje, em plena ditadura do politicamente correcto, não só se comete o erro de no erro persistir: o erro é-nos coercivamente imposto, sufocando a verdade, levando à proliferaçào das paixões desordenadas.

Memórias de um burro I


Desço para cima o Nilo. Deixo atrás Juba-a-cidade, capital que me fascina. Parto rumo à selva que me seduz. Desço para cima o Nilo, instalado numa barca velha, bem estimada, por entre pântanos governados por senhores crocodilos, doutores hipopótamos. Desço para cima o Nilo e encontro soldados de chinelos cor-de-rosa e kalashnikov ao ombro que vagueiam pelos inúmeros postos de controlo da SPLA. Soldados-ex-rebeldes que me interceptam a cada chegada e me recebem com a resplandecente graciosidade daqueles doutores, a tenaz voracidade daqueles senhores. Desço para cima o Nilo, bem para além da civilização, pouco aquém, ainda, do Sudão. E chego ao meu destino.

Malakal é a terra dos burros. Dos burros e da lama. E das carroças puxadas pelos burros, puxados pela lama. Atravesso a pé a cidade, num passo ligeiro, ligeiro coxeio, que adquiri há uns dias resultado de um patético trambolhão. Passo por um miúdo miúdo vestido de trapos de trapos que me aponta o dedo. Dispara. Fixo-lhe os olhos, sangue a escorrer pelo buraco que me cavou no peito aquela bala imaginária. Surpreende-o o meu olhar-resposta e por reflexo dá num quase-salto um passo assustado para trás, deixando cair a máscara de soldado o menino. Ao levantar o braço eu estremece ele, mas mantém firme a perna ancorada na terra. Semi-cerra os olhos como quem se prepara para levar uma bofetada. Ao levantar o braço eu, passo a mão pela cabeça do miúdo miúdo, vestido de trapos de trapos, e sigo caminho num passo ligeiro, ligeiro coxeio. Não resisto o sorriso ao imaginar as hipotéticas reacções perante uma cena semelhante, mas passada numa Alemanha qualquer: um ariano miúdo miúdo vestido de trapos de trapos, disparando sobre um preto, mortífero o seu dedo letal.


Importantíssimos desenvolvimentos da situação na Síria

Tal como temos vindo a dizer desde há mais de dois anos, as forças dos Estados Unidos e seus aliados não se têm poupado a esforços para promover a guerra na Síria que dura desde o início de 2011. Este apoio criminoso aos terroristas tem sido feito em nome de uma “Primavera Árabe” que, já o sabemos, é um movimento obscuro mas muito bem orquestrado, com objectivos ainda por esclarecer, operando sob a máscara da luta pela democracia, e cujos resultados se traduzem na implementação de regimes igualmente obscuros ao preço de centenas de milhares de mortos e destruição generalizada.

O rasto de destruição e morte provocado pela guerra na Síria em particular é tremendo e resulta do falhanço completo das previsões americanas, que julgavam conseguir fazer cair o regime numa questão de poucos meses. Decidiram ignorar as declarações proferidas por Putin no início dos confrontos, quando este disse que “a Síria não é a Líbia”, afirmando-se desde o início indisponível para compactuar com uma intervenção armada visando o derrube de Bashar al-Assad.

Criou-se uma plataforma formada pelos países da península Arábica, a Turquia, os Estados Unidos e seus aliados com o objectivo de armar rebeldes e conquistar Damasco a partir do Norte. Contra o fornecimento de armas, treino e apoio logístico aos rebeldes, responderam a Rússia e o Irão na mesma moeda com apoio continuado a Assad. Ao lado destes, embora de forma mais discreta, posicionou-se a China, sendo esta o elemento-chave que permitiu que, até ao momento, a tal plataforma não tenha sido capaz de movimentar uma invasão explícita à Síria.

A pressão sobre a Síria dos meios de comunicação internacionais alinhados com os interesses desta plataforma tem sido constante, mas alternando momentos de maior intensidade com outros de relativa passividade. Estamos mais uma vez numa fase crucial, como se pode perceber pela quantidade de desinformação que tem sido publicada contra o regime, incluindo a conhecida estratégia das alegações do uso de armas químicas por parte do regime Sírio. Tudo indica, portanto, que os Estados Unidos se preparam para uma nova ofensiva mediática e diplomática com o objectivo de concretizar a invasão ao país.

É neste contexto que aparece de novo Putin, em tom firme e seguramente ameaçador, reafirmando o seu compromisso de não permitir tal invasão, e dizendo que para isso está disposto a intervir militarmente e de forma directa. No seguimento dos bombardeamentos dos últimos dias perpetrados por Israel em território Sírio, o Presidente Russo deixa um aviso a Netanyahu: novos bombardeamentos não serão tolerados.

Putin já afirmou em diversas ocasiões que tem vindo a fornecer armas sofisticadas ao regime. Por esta notícia pode ver-se que se trata de armamento de peso, pelo que Israel terá, decididamente, de medir as consequências caso esteja a considerar um novo ataque à Síria.

Do outro lado da ofensiva, consta que os Estados Unidos contiuam a treinar os rebeldes em campos militares na Jordânia e na Turquia, para além de lhes fornecerem também armamento, certamente desde que começou a actividade terrorista do “Free Syrian Army”.

Muitos são os que julgam impossível uma nova guerra entre as maiores potências mundiais. Em conversas entre amigos, à mera sugestão de uma guerra de proporções planetárias, a resposta é geralmente de absoluta incredulidade ou até escárnio. Os sinais, no entanto, estão à vista de todos: as movimentações dos submarinos nucleares Ingleses e Americanos no Golfo do Irão para “exercícios de rotina”, as crescentes tensões entre a China e o Japão, o fundamentalismo islâmico, a incessante beligerância de Israel, as ameaças Russas, o colapso financeiro e social da Europa, enfim, poderia continuar durante horas, mas pelos vistos nada disto é real, nada disto está interligado. Até porque “está tudo bem como está, e não podia ser de outra forma”.

7 de maio de 2013

Sassaricando

Não restará na Síria, muito em breve, pedra sobre pedra.
 

Repete-se o triste espectáculo Iraq’03, aquele em que tivémos a oportunidade de assistir à devastação de cidades Sumérias com mais de 6,000 anos. Ou ao saque de mais de 10,000 objectos do Museu Nacional de Bagdad (alguns encontrados mais tarde à venda no e-bay por meia dúzia de tostões). Ou ainda ao incêndio da Biblioteca Corânica, que reduziu a cinzas inúmeras obras absolutamente insubstituíveis e, não é exagerado dizê-lo, esquartejou grande parte da identidade cultural do país.

Estes casos servem apenas de exemplo de toda uma civilização que, tendo sobrevivido milénios, está agora irremediavelmente extinta. O cenário é desolador. A perda é incomparável.

Repete-se o triste espectáculo enquanto escrevo estas impotentes linhas.

A lista do património já destruído desde o início da barbárie Síria é imensa, sendo a mais recente vítima a cidade Romana de Palmira, cujas imagens ilustram este artigo.

Anda por aí a circular um dramático e-mail sobre a extinção do rinoceronte lilás da Micronésia. Imagino que o post correspondente no Facebook conte já com 700 Milhões de partilhas e outras tantas lágrimas. Por favor partilhem. É urgente.


[Também no Estado Sentido

4 de maio de 2013

Do Progresso

O Conservador é um ser curioso. Ele olha para os homens de hoje como seres ingénuos, não sem alguma condescendência, e acredita essencialmente poder aplicar com sucesso velhas soluções para problemas novos. É desta forma que o Conservador procura que dos elementos da sociedade, da política, da religião, se conserve sempre tanto quanto se possa conservar, mantendo assim os hábitos e os costumes à sua volta com o mínimo de alterações possíveis.

Não menos curioso é o Progressista. Este olha para os homens de ontem, não sem alguma arrogância, como incapazes de compreender os problemas de hoje, e sente por isso a necessidade constante de inventar novas soluções e reinventar a sociedade em fantásticas utopias, frequentemente distópicas, como forma de lidar com os desafios com que se depara.

O Progressista tem “sede de inovações”; são os “espíritos apreensivos e numa ansiedade expectante” a que se referia o Papa Leão XIII [1], e de onde resulta a tendência de sobre-dimensionar os pequenos acidentes da espuma dos dias, dramatizando realidades que mais não são do que amálgamas de repetições dos acidentes de outros tempos que, já consumados na sua essência, podem sofrer maiores ou menores mutações, também elas acidentais.

Estas duas forças disputam entre si o domínio do espaço das várias esferas em que nos movemos em sociedade e, por uma questão de lógica, será o Progressista quem inevitavelmente levará a vantagem nessa disputa, desde que perspectivando um espaço de tempo suficientemente amplo. Assim é pela simples razão de que, enquanto que cada vitória do Progressista constitui uma derrota para o Conservador, todas as mudanças conquistadas pelos primeiros, partindo do princípio que constituem alterações a ser assimiladas pelos segundos, serão eventualmente defendidas por estes em disputas futuras pela conservação do novo status quo.

É neste contexto que surge a única alternativa real a estas duas forças: o Tradicionalista. O Tradicionalista não receia a mudança pois compreende a importância de rejeitar a conservação daquilo que lhe não convém. Por outro lado, ele deposita no homem de hoje uma fé total, recusando encarcerar-se na ilusão de um tempo que não é o seu. Ele compreende e aceita não só a dimensão espiritual do mundo, mas também a sua dimensão temporal, e é sob a luz destas duas dimensões que ele actua.

Dom Bertrand de Orleans e Bragança defende que “o progresso tem de ser necessariamente tradicionalista[2]. O Tradicionalista recusa o saudosismo estéril e posiciona-se a uma distância suficientemente confortável do passado que lhe permita olhá-lo sem complexos. Diz Dom Bertrand que “quando se fala em tradição fala-se de aprender as lições do passado, analisar as do presente para projectar o futuro”.

Neste meu regresso ao Estado Sentido, procurarei submeter as minhas intervenções a este princípio de base. Será natural que algumas opiniões entrem em conflicto com a visão de vários leitores e mesmo a de alguns colegas do blog. Quando assim for, espero que possamos manter uma discussão cordial mas interessante, mas estou disposto a sacrificar a cordialidade se o interesse assim o justificar. E espero, acima de tudo, que encontrem algum interesse naquilo que eu tiver para dizer.

Agradeço o convite, mais uma vez, ao Samuel, e aos demais a simpática recepção.


[1] Carta Encíclica Rerum Novarum, 1891, sobre A Condição dos Operários
[2] A Revista de Portugal, nº11, Ano 1, Dezembro 1998

[Também no Estado Sentido]

1 de maio de 2013

Conferência sobre a Constituição da Hungria



A Nova Constituição Política da República da Hungria pelo Dr. Norbert Konkoly, Embaixador da República da Hungria em Lisboa, com um brilhante comentário de Jorge Azevedo Correia, no passado dia 23 de Abril no Palácio da Independência, com o apoio da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

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