29 de maio de 2013

Memórias de um burro I


Desço para cima o Nilo. Deixo atrás Juba-a-cidade, capital que me fascina. Parto rumo à selva que me seduz. Desço para cima o Nilo, instalado numa barca velha, bem estimada, por entre pântanos governados por senhores crocodilos, doutores hipopótamos. Desço para cima o Nilo e encontro soldados de chinelos cor-de-rosa e kalashnikov ao ombro que vagueiam pelos inúmeros postos de controlo da SPLA. Soldados-ex-rebeldes que me interceptam a cada chegada e me recebem com a resplandecente graciosidade daqueles doutores, a tenaz voracidade daqueles senhores. Desço para cima o Nilo, bem para além da civilização, pouco aquém, ainda, do Sudão. E chego ao meu destino.

Malakal é a terra dos burros. Dos burros e da lama. E das carroças puxadas pelos burros, puxados pela lama. Atravesso a pé a cidade, num passo ligeiro, ligeiro coxeio, que adquiri há uns dias resultado de um patético trambolhão. Passo por um miúdo miúdo vestido de trapos de trapos que me aponta o dedo. Dispara. Fixo-lhe os olhos, sangue a escorrer pelo buraco que me cavou no peito aquela bala imaginária. Surpreende-o o meu olhar-resposta e por reflexo dá num quase-salto um passo assustado para trás, deixando cair a máscara de soldado o menino. Ao levantar o braço eu estremece ele, mas mantém firme a perna ancorada na terra. Semi-cerra os olhos como quem se prepara para levar uma bofetada. Ao levantar o braço eu, passo a mão pela cabeça do miúdo miúdo, vestido de trapos de trapos, e sigo caminho num passo ligeiro, ligeiro coxeio. Não resisto o sorriso ao imaginar as hipotéticas reacções perante uma cena semelhante, mas passada numa Alemanha qualquer: um ariano miúdo miúdo vestido de trapos de trapos, disparando sobre um preto, mortífero o seu dedo letal.


Sem comentários:

Enviar um comentário